Biografia: Carlos Lamarca (1937 - 1971)

Nascido no Rio de Janeiro, em 27 de outubro de 1937, Carlos Lamarca foi o terceiro entre os seis filhos de Antônio e Gertrudes Lamarca, uma família modesta da zona norte carioca. Magro, com 1,75 m de altura, olhos e cabelos castanhos escuros, casou-se em 1959 com Maria Pavan, com quem teve dois filhos: César e Cláudia. Aos 16 anos participou de algumas manifestações de rua durante a campanha nacionalista ‘O petróleo é nosso’. Tinha como livro de cabeceira a obra Guerra e Paz, de Tolstoi. Nessa época já havia tomado uma firme decisão: queria ser oficial do Exército Brasileiro. A carreira então projetada foi ganhando contornos definidos. Formou-se, em 1960, pela Escola Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ), obtendo a patente de Capitão em 1967. Em entrevista concedida ao periódico chileno Punto Final, em abril de 1970, dizia Lamarca: ‘Sou um dos poucos oficiais brasileiros de origem operária. Estudei com sacrifício de meus pais e escolhi a carreira por entender que as Forças Armadas teriam condições de contribuir para o desenvolvimento e emancipação do meu País. Logo me desiludi.’ Em setembro de 1962, Lamarca foi recrutado para integrar o contingente militar da Organização das Nações Unidas. Seu destacamento permaneceu um ano na zona de Gaza, no Egito, perto do canal de Suez. Regressando ao Brasil, foi designado para servir num batalhão da Polícia do Exército, na cidade de Porto Alegre (RS), período em que, admirando a tentativa de resistência de Leonel Brizola ao golpe de 1964, solicitou inscrição junto ao Partido Comunista Brasileiro, que nunca chegou a se formalizar. Mas foi em São Paulo, no quartel de Quitaúna, para onde pediu transferência em 1965, que Lamarca, estudando e discutindo com um grupo de companheiros as perspectivas de luta armada, fez sua opção revolucionária. Era preciso buscar ‘um caminho para a revolução brasileira’, que, nos termos da referida entrevista, supunha modificar a situação agrária e, por conseguinte, ‘romper com todo o sistema, baseado e construído exatamente sobre o atraso e a miséria de nossas regiões rurais’. Para tanto, era necessário construir ‘a primeira coluna guerrilheira, alternativa do poder das classes dominantes, embrião do futuro Exército Popular’, com a simultânea implantação de ‘guerrilhas irregulares em todos os pontos importantes do País.’ Influenciado pela revolução cubana e pelos movimentos guerrilheiros latino-americanos, Lamarca passou a defender as teses de Guevara e Régis Debray, teóricos do foco guerrilheiro: um pequeno grupo de homens bem treinados e bem armados, atuando em alguma área do campo, poderia desencadear a luta armada e despertar as massas para a insurreição. Já estava organizado, em 1967, o grupo de Carlos Marighella, a Ação Libertadora Nacional (ALN), e havia também um grupo de militares expulsos das Forças Armadas que mantinham ligações com operários metalúrgicos de Osasco e outros setores proletários da região industrial de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano. Lamarca acompanhava com grande interesse o grupo de ex-sargentos que, inicialmente vinculado ao Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), uniu-se a um setor dissidente da Política Operária (POLOP) e deu origem à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Sua perspectiva, naquele momento, era a de entrar em contato com algum grupo da esquerda armada brasileira que o aceitasse como simples militante e oferecer, de imediato, a possibilidade de realizar uma ação de expropriação no quartel de Quitaúna. ‘Durante esses anos’ - prossegue Lamarca na mesma entrevista - ‘busquei contato com as organizações revolucionárias que propusessem um caminho para a revolução brasileira de acordo com as conclusões a que eu chegara’. As numerosas discussões então realizadas com Joaquim Câmara Ferreira, um dos principais dirigentes da ALN, levaram-no a optar por outra linha política, a da VPR. Passou a integrar a célula do IV Regimento de Infantaria. Por iniciativa de Lamarca, preparou-se a ação de expropriação de armas e munições do quartel, com o imediato ingresso de toda a célula na guerrilha urbana. Em 24 de janeiro de 1969, Lamarca deixou Quitaúna com a carga de 63 fuzis FAL, algumas metralhadoras leves e muita munição. A idéia era seguir imediatamente para uma região onde pudesse preparar a guerrilha, o que o obrigou, de imediato, a separar-se da mulher e dos filhos, enviados para Cuba, via Itália, no mesmo dia de sua deserção. Lamarca passou 10 meses trancado em ‘aparelhos’ na cidade de São Paulo, vivendo clandestinamente, até seguir para o Vale da Ribeira, com mais 16 militantes, a fim de realizar um treinamento em guerrilha. Lá permaneceu até maio de 1970, quando a região foi cercada por tropas do Exército e da Polícia Militar. Houve combates, mas Lamarca conseguiu romper o cerco ao lado de dois companheiros, após a retirada de vários outros. A ‘Operação Registro’, como a denominou o II Exército, durou 41 dias e resultou na prisão de quatro guerrilheiros. De volta à cidade, continuou no comando e planejamento de ações armadas, para resgatar prisioneiros políticos e obter recursos para a sobrevivência da organização. Foram ao todo dois anos e oito meses de clandestinidade, nos quais reforçou seu caráter introspectivo e exercitou sistematicamente – com a mesma disciplina que emprestava ao treinamento físico – o hábito de ler e escrever. Nas sucessivas mudanças a que era obrigado por razões de segurança, de duas coisas nunca se separava: da arma e dos manuscritos, que intitulava provisoriamente de ‘Estudos militares’. Utilizando como nomes de guerra João, Renato, Cláudio, César, Cid e Cirilo, Lamarca não se limitou a traçar as estratégias de algumas das ações da VPR, mas participou diretamente do comando de seqüestros e expropriações. Em abril de 1971, em discordância com a VPR, ingressou no Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). No mês de junho, Lamarca foi para o sertão da Bahia, no município de Brotas de Macaúbas, com a finalidade de estabelecer uma base desta organização no interior. Com a prisão em Salvador, em agosto, de um militante que conhecia seu paradeiro e a localização de um aparelho onde se encontrava a psicóloga paulista Iara Yavelberg, companheira de Lamarca desde 1969 (Iara suicidou-se com um tiro de revólver no dia 23), os órgãos de segurança iniciaram o cerco à região. A direção do MR-8 não cuidou de retirá-lo de lá, mesmo considerando que Lamarca não tinha poder de decisão, pois se recusara a participar da organização como dirigente. Um tiroteio travado entre a polícia e os irmãos de José Campos Barreto, o Zequinha, que acompanhava Lamarca, obrigou-os a iniciar uma longa e penosa rota de fuga, de 28 de agosto a 17 de setembro, com um percurso de quase 300 quilômetros. Ao descansarem à sombra de uma baraúna, foram surpreendidos pela repressão. Lamarca estava desnutrido, asmático, provavelmente com a doença de Chagas. A imprensa brasileira apresentou na ocasião duas versões sobre o diálogo que teria havido entre Lamarca e o ‘agente federal’. Para O Globo, foram apenas três frases: ‘Você é Lamarca?’ – ‘Sou o Capitão Carlos Lamarca.’ – ‘Era. Agora você vai ser defunto.’. A versão da maioria dos jornais foi um pouco mais longa: ‘Quem é você?’ – ’Carlos Lamarca.’ – ‘Sabe o que aconteceu com a Iara?’ – ‘Ela se suicidou em Salvador.’ – ‘Onde está sua mulher e seus filhos?’ – ‘Estão em Cuba.’ – ‘Você sabe que é um traidor da Pátria?’. Lamarca teria morrido sem responder a esta última pergunta. O desfecho que, com pequenas variações, caracteriza a versão oficial da morte de Lamarca, reforçada mais tarde pela publicação do chamado Relatório Pajussara do Major Cerqueira e consagrada pelo filme de Sérgio Rezende, é inverossímil. Os que o caçaram pelos sertões da Bahia deveriam temer, na realidade, o vigor, a atilada inteligência, os reflexos precisos, o esmerado preparo militar do Capitão Lamarca, e jamais entrariam em sua linha de tiro. Limitaram-se a matar em silêncio um homem desfalecido.


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