Biografia: Stooges

Surgidos em Ann Arbor, estado de Michigan, EUA, os Stooges (‘Os Patetas’, nome inspirado nos pueris Três Patetas) eram o que possivelmente se poderia imaginar de mais abjeto, imediativo e vulgar em termos de entretenimento musical. Todavia, se hoje pode-se freqüentar um shopping vestindo uma calça apinhada de buracos de cigarro, ou então usando um corte de cabelo que mais parece um urso de pelúcia encharcado de querosene, é bem provável que isso se deva a Iggy e os Stooges: sem eles, a seqüência de eventos que culminou com o surgimento do movimento punk não teria dado seus passos mais elementar, e o mundo não teria conhecido a noção de ‘subversão vendável’. Os Stooges não eram músicos virtuosos: a princípio, mal sabiam como empunhar seus instrumentos; tampouco primavam pela inteligência: eram completamente apolíticos e dotados de um senso de humor demencial; como comentário final, cabe dizer que também não alcançariam sucesso como símbolos sexuais: eram, invariavelmente, feios feito o diabo. Em uma época onde o virtuosismo musical ligado ao flower power e à insurgência hippie começava a desabrochar, os Stooges apresentavam espasmos raivosos emoldurados em míseros três acordes. A seção rítmica, a cargo de Dave Alexander (baixo) e Scott Asheton (bateria) era um fiasco ambulante, produzindo uma ressonância primitiva, brutalmente rudimentar, enquanto Ron Asheton tocava sua guitarra basicamente como se ela fosse um instrumento de percussão. O vocalista era um sujeito esquálido de enormes olhos verdes chamado Iggy Pop – nome de batismo: James Jewel Osterberg -- , cujas performances foram o que realmente angariaram alguma atenção para o grupo na época. Suas apresentações não chegavam a ser taxadas como arte performática: eram sujeira sadomasoquista, sangue, agressão contra a platéia, uma verdadeira afronta contra a Liga Das Senhoras Católicas. Iggy se auto-mutilava com cacos de vidro, cuspia na platéia, copulava, nu, com o pedestal do microfone, vomitava na primeira fila, insultava a todos, se apresentava em vestidos de mulher que deixavam seus genitais à mostra, montava nas costas de fotógrafos, passava pasta de amendoim por todo corpo e rastejava pelo chão, convocava motoqueiros para a briga sem nenhum motivo aparente. Iggy subia ao palco usando uma coleira de cachorro; era uma selo de ‘PARENTAL ADVISORY’ ambulante. Pode-se argumentar que os Stooges não foram os primeiros a injetar um senso de confrontamento urgente no rock: Stones, Doors, até mesmo os Beatles -- todos, a seu modo, armaram o circo e tentaram insultar ao mundo com suas performances de palco desconcertantes, suas letras de teor junkie e/ou sexual supostamente patológico, suas roupas de brechó, e, principalmente, seus cortes de cabelo realmente ruins. O diferencial é que todas estas bandas pareciam ter um propósito mais ou menos definido, e suas táticas de choque apontavam para propósitos mais elevados. Um lance hippie, se é que me entendem. Os Stooges simplesmente acreditavam que o mundo se encontrava irremediavelmente povoado por idiotas -- soube-se, então, que as coisas seriam um pouco diferentes. Toda sujeira e escatologia forjadas por Iggy and the Stooges ao vivo não teriam absolutamente nenhuma relevância se sua música não estivesse à altura de tamanha injúria. É sabido que a técnica não se subordina à emoção -- aqui estamos falando de emoções grandes demais para o homem mediano lidar – Stooges significa agressão primeva, uma nuvem de eletricidade estática percorrendo seu corpo em meio a uma tempestade de canivetes, distúrbios variados, extinção da chama através do vício, veneno, sexo degenerado à condição de cópula e poder tribal, instintos básicos o suficiente para fazer um adulto chorar, seu rostinho bonito está indo pro inferno e eu quero ser teu cachorro e lamber o chão no qual tu pisou e me perder em areia flamejante enquanto o mundo sangra e eu corro pra bem longe sem nem ao menos olhar para trás. Essas coisas. Hoje, isso é punk, mas em 1969 isso era o quê? Simples niilismo? Pós-hippie? Anti-hippie? Isso não era o Velvet Underground tentando bancar os beatniks versão rock’n’roll e empurrando isso goela abaixo nos universitários -- isso era uma energia elementar grande demais para ser manipulada – simplesmente acontecia. Iggy and The Stooges conseguiram alastrar seus tentáculos viciosos através do subconsciente púbere americano em pouquíssimo tempo (a banda lançou três discos oficiais -- todos definitivos -- entre 1969 e 1973), deixando uma marca indelével e cujo impacto encontra sua maior definição em duas palavras: justiça poética. Na época, seus discos não venderam nada, embora – ou justamente por isso – seja comumente apontado, juntamente com o MC5, de Detroit, como o primeiro grupo a introduzir o noise, o barulho perverso e de vanguarda no rock. Basicamente, o som da banda era uma versão mais tosca e desesperada do rock com raízes no blues praticado por grupos como Rolling Stones e Cream – Iggy tinha tocado bateria em uma banda de blues chamada The Iguanas. Ao passo que o MC5 tentava ostentar ares politizados – viviam em uma comunidade hippie-socialista, suas letras falavam sobre ‘irmãos e irmãs’– os Stooges não estavam nem aí para coisa alguma. Sua fúria e sua postura de redução a nada foram o que realmente meteram a noção de subversão e afronta através da música na cabeça de dezenas de novas bandas. Imagine uma banda que vendeu dez discos, e cada um dos sujeitos que comprou o disco montou uma banda influente, e então pode-se ter uma idéia aproximada do que foram os Stooges. Todo o punk nova-iorquino é cria da banda: do som despojado e repleto de fúria descabida às performances de palco plageando Iggy. Sem Stooges, não haveria Ramones, ou Patti Smith Group, ou New York Dolls – ao menos, não do modo como os conhecemos. Os Sex Pistols foram um caso à parte: embora Malcom McLaren, o empresário por trás da projeção do primeiro grupo punk comercialmnete viável tivesse como parâmetro sua primeira incursão no rock business (os já citados New York Dolls), os Pistols tinham os Stooges como ídolos máximos, executando ao vivo covers funestas de ‘No Fun’ e ‘I Wanna Be Your Dog’. Afora isto, Iggy e sua banda podem ser considerados a pedra angular do rock alternativo; um sem-número de bandas os cita como influência primordial, à sua escolha: de Sonic Youth a Guns’N’Roses, passando por Nirvana, Red Hot Chili Peppers, Royal Trux, Boredoms, Make Up, Demolition Doll Rods, Spiritualized, Mudhoney, Monster Magnet, Queens Of The Stone Age, At The Drive-In, Delta 72, Guitar Wolf, Girls Against Boys, Nine Inch Nails, Butthole Surfers, Big Black, Rage Against The Machine, Jon Spencer Blues Explosion, Flaming Lips, Mercury Rev, Ministry, Black Flag, Six By Seven, Marilyn Manson. The Strokes? Vale aqui a máxima do Public Enemy: ‘don’t believe the hype’. Talvez – e só talvez – se os Stooges tivessem sobrevivido à implosão do punk e tomado o rumo diluidor da new wave, chegassem a soar tão mal quanto os superestimados Strokes.


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