Entrevistas: No Rest
Por Rafael R. Silva
Qual era a idéia e dificuldades iniciais da banda? Esse estilo de som e vocal agressivo foi pensado desde o começo?
Começamos a ensaiar no final do ano de 89, baixo, bateria e voz. O baterista e baixista já haviam tocado juntos anteriormente na banda Apartheid. Os primeiros ensaios ficávamos experimentando, não havia uma idéia definida quanto ao som, quero dizer, não queríamos soar como uma determinada banda. Mas pelo fato de ouvirmos bandas Punk e também Metal, o som foi se desenvolvendo para esse lado e foi ficando cada vez mais pesado e agressivo. As vezes um ou outro amigo vinha ensaiar com a gente tocando guitarra, mas não rolava afinidade. Foi menos de um ano depois que o Zé começou a tocar guitarra com a gente. Logo depois entrou outro guitarrista e a banda ficou ainda mais pesada. Mas ele saiu em 94. Posso dizer que eu mesma tive muita influência do Metal, que me acompanha até hoje, mas eu percebia que a nossa maneira de pensar não se encaixava com o Metal. E isso foi ficando cada vez mais evidente quando passamos a entender melhor as letras (em geral em inglês). A conexão com Metal era uma coisa mais de som, de guitarra pesada, vocal gritado. A idéia inicial que perdura até hoje tem 3 características: 1. letras que declarassem uma inconformidade muito forte que sentíamos com relação as injustiças sociais, 2. vocal agressivo, 3. sonoridade agressiva.
Tivemos vários “tipos” de dificuldades. Dificuldade de conseguir estúdio, problemas com vizinhos, espaço pra tocar (shows), e principalmente gravar. Era completamente diferente a realidade da época com relação a gravação. Nosso primeiro álbum, “Sick Society” foi gravado somente em 96 e ainda tivemos problemas com a prensagem que só saiu em 98!
De onde surgiu o nome da banda? Quantos integrantes já passaram e quais estão agora?
No início a banda tinha outro nome, que era 666. Aí em 94 mudamos de nome, coisa que já pensávamos havia algum tempo. Decidimos por No Rest que significa “sem descanso”, porque reflete mais o que se passa com a gente, como a gente encara a vida em si. Não se tem descanso quando tu não se sente adaptado no meio, porque é uma luta constante não se entregar, tentar fazer as coisas de forma consciente e manter a sanidade. O Zé entrou quando a banda tinha quase um ano e então ele e eu (Aline) estamos tocando juntos desde então. O Santiago (bateria) substituiu o Dedé em 94 e já toca com a gente há 11 anos. No baixo é que tivemos mais mudanças, já trocamos de baixista 5 vezes e agora quem toca é o Lasse que conhecemos na Finlândia.
As músicas novas que estão para entrar no novo disco seguem a linha do anterior? O que vem mudando na No Rest?
Ficamos praticamente o ano passado inteiro em turnê, primeiro fomos para o Rio, depois ficamos 45 dias na América Latina (Uruguai, Chile, Peru, Bolívia e na volta tocamos em Campo Grande no Mato Grosso). Chegamos em Porto Alegre e depois de 10 dias apenas, fomos para a Europa, onde ficamos 3 meses. Então não tivemos tempo ainda para o disco. Fizemos algumas músicas no caminho, ou “nos caminhos”, mas temos que parar para ensaiar e fazer outras. Então fica difícil definir uma linha, mas acho que estamos mais pesados e agressivos.
A No Rest mudou bastante e não mudou bastante. Explico. Acho que a mudança é/foi natural, afinal são 16 anos. As mudanças tem origens sonoras, mas também da relação que temos com o mundo, que também muda. Da mesma forma os sentimentos e experiências individuais, assim como conhecimentos adquiridos influenciam no que fazemos. Então podemos dizer que as mudanças são fruto da nossa própria vontade, e isso nunca muda.
Já fomos mais Metal no início, depois fomos ficando mais crus, mais cadenciados numa época, depois mais rápidos. Também é uma questão de ponto de vista e também de época para considerar uma banda “isso” ou “aquilo”. Ainda hoje há muitas pessoas presas a conceitos. Eu acredito que o Punk é questão de atitude. Mas o próprio Punk tem conotações diferentes para as pessoas. Hoje bandas como “Tragedy” são Punk, antes bandas como “Armagedom” eram muito pesadas para serem consideradas como tal para algumas pessoas.

Como é a receptividade da banda fora do Brasil?
É ótima, desde a primeira vez que fomos, em 2000 para a Europa. Da primeira vez fomos sem nada agendado, na loucura mesmo. Começamos a contatar algumas pessoas, e dali “a coisa” foi crescendo. Depois fomos em 2001 e a última em 2004. Acredito que somos mais conhecidos lá que aqui, o que não achamos vantagem, é apenas um fato. Talvez porque sempre gostamos de por o pé na estrada, de tocar e deixamos para trás outras coisas como “articulação”.Nos países vizinhos também fomos super bem recebidos e gostaríamos de fazer outra turnê sulamericana. E só pra informar, nossa primeira grande turnê, foi no Brasil em 98, durante 4 meses viajamos tocando em 12 estados. Foi uma turnê também como a primeira da Europa, sem nada agendado previamente. Chegávamos nos lugares e fazíamos contatos com as pessoas, e então rolava uns shows, as vezes não. Acho que ainda em 98 essa coisa de turnê aqui no Brasil era muito casca, ainda é, mas acho que tá todo mundo mais ligado no que ta acontecendo. Nunca vamos esquecer as pessoas que nos apoiaram naquele momento. Apoio que não foi apenas de conseguir local para tocar, mas de receber a gente de modo geral. Ficamos 4 meses na estrada sem certeza de nada, nem de lugar para dormir, por isso valorizamos muito esse apoio.
Como está o espaço para o underground? Para uma banda que está começando hoje, está mais fácil crescer do que quando a No Rest começou?
Hoje o acesso a informação, a contatos é mais fácil. A própria Internet propicia com que as pessoas se comuniquem rápida e eficazmente. Também, como eu já disse antes, gravar ficou mais fácil e conseqüentemente troca de material etc. É ótimo que isso acontece. Agora sobre crescer. Crescer quanto? Isso depende muito do que a banda almeja. Nós tocamos porque gostamos e porque assim podemos expressar nossos sentimentos e idéias.
Que opinião vocês tem sobre mp3, e a ajuda que a internet traz na divulgação das novas bandas?
O lado bom da mp3 é que tu podes conhecer e baixar as músicas da banda que te interessa. Da mesma forma a Internet pode ajudar na divulgação das bandas. Mas por outro lado as coisas se deturpam e também se descartam muito rapidamente.
O que o pessoal da banda anda escutando?? Bandas Nacionais e Internacionais.
Nós somos 4 pessoas e ouvimos várias coisas em comum e outras não. Tem coisas que a gente sempre escuta, outras se parou de escutar. Mas a pergunta é sobre o que “anda escutando” e devido a essas turnês talvez temos ouvido mais bandas de fora. Essa pergunta até me fez pensar: "porque não ando ouvindo bandas brasileiras?” (tipo sentimento de culpa...) mas aí eu pergunto, não é contraditório falar em anti nacionalismo e exigir que se ouça música nacional?
Aí cito algumas das bandas que estamos ouvindo: Post Regiment, Dezerter, Armageddon Clock, Tragedy, Berunda, Scatha, Viimeinen kolonna, Sorto, Kingston Wall.!

O que a banda vê como deplorável na atualidade brasileira? Inicialmente o que seria necessário para reerguer esse "sistema falido", o que precisa ser alterado imediatamente?
São tantas coisas que fazem a gente se indignar. É deplorável a forma como é feita a distribuição de renda no país, o salário mínimo é deplorável. Esse sistema apesar de falido é o vigente, ou seja não é preciso reerguê-lo, ele está aí. Seria bom tombá-lo mesmo. A política adotada pelo governo é falsa, os partidos todos são oportunistas. É revoltante ver que a mídia dita as regras e que as pessoas se agarram a elas. As injustiças sociais e a desigualdade de direitos são absurdas. A violência é uma conseqüência cruel. Enfim, não é nada positivo, é claro que a forma de governo, esse sistema não ta funcionando, estamos emaranhados num caos sem fim. O mundo inteiro está, mas os países de terceiro mundo sofrem mais as conseqüências. Agora, eu acho muito fácil apenas criticar aquilo que não está ao nosso alcance, temos que saber que também temos nossa parcela de culpa. O que poderia ser alterado imediatamente, já que o sistema parece se manter, é uma mudança individual coletiva.
Qual foi o pior show que vocês já assistiram e o melhor show que já fizeram?
Não lembro o pior show que assistimos e acho que nem ficaria legal citá-lo... O melhor show que fizemos... difícil definir e talvez lembrar bem ao certo. Mas acho que dos últimos alguns dos melhores são: Na Irlanda em Belfast, na Noruega em Oslo na squat Blitz, na República Checa em Bysicich , na Alemanha em Jena e no Kopi em Berlim, La Paz na Bolívia....
Um resumo do que foi a turnê da No Rest pela Europa, melhores e piores momentos.
Toda turnê tem altos e baixos. Isso ta incluído no “pacote”. Essa última turnê porém, foi um tanto dura para nós devido a certos acontecimentos que botaram à prova nossa força de vontade e capacidade de superação. Vou tentar resumir. Quando estávamos com 45 dias de turnê(exatamente a metade), ao sairmos da Rússia em direção a Estônia sofremos um acidente que quase nos impediu de seguirmos adiante. Estávamos indo para Tartu, pegamos o caminho errado, pois o mapa era confuso e talvez não fosse atualizado, estava chovendo e o caminho era de chão batido. O carro era tipo um caminhão, uma antiga ambulância da Cruz vermelha Alemã, deslizou, perdeu o controle e começou a capotar parando apenas quando encontrou uma árvore. Pânico. O Zé parecia ter quebrado o braço, não conseguia se mover, o carro estava virado e eu mesma me lembro de ter que pular pela janela. Gritei pelos guris que estavam na parte de trás do caminhão (era separado da cabine da frente), assustada por não estar ouvindo ninguém. Santi e Lasse responderam que estavam vivos. Voltei para a cabine para ajudar o Zé que permanecia imóvel e com muita dor. O cara que dirigia, Stuber, dono do carro, estava preso no carro também. O lasse não conseguia caminhar direito com fortes dores nas costas e cabeça. Ficamos lá no meio do nada, com uma floresta ao nosso redor. Eu e Santi começamos a caminhar para buscar ajuda, e então passou um ônibus que parou quando fizemos sinal. Depois de conseguirmos fazê-los entender o que tinha se passado entre mímicas e palavras que acreditamos universais eles nos levaram de volta ao local do acidente e uma mulher ligou por ajuda. Nos encontramos no meio de sirenes de ambulância, polícia e bombeiros. Ligamos para o cara que estava nos esperando para o show que seria naquela noite. Ele veio ao nosso encontro. Ficamos uma semana em Tartu. Sem carro para continuarmos a turnê, com o Zé sem condições de tocar e pondo nossa cabeça em ordem. Tivemos que cancelar 8 shows. Decidimos não cancelar toda a tour, embora não houvesse certeza de como continuaríamos. Acho que não vai dar pra contar tudo como foi, se não vou me estender muito. No “final das contas”, conseguimos uma van, o Lasse foi para a guitarra e o Zé com o braço esquerdo engessado tocou teclado com som de baixo! nos 2 primeiros shows após o acidente. Já no terceiro show ele surpreendeu a todos pegando a guitarra com gesso e tudo. Esse foi o pior momento, ficamos com o fantasma do acidente no resto da turnê, e não foi fácil manter a calma e a confiança na estrada no resto do percurso que durou mais 45 dias. Ficamos bastante abalados mas reunimos forças para superar o acontecido.
O melhor momento é difícil definir, já que tantas coisas aconteceram também de boas. Ter conhecido a Rússia e a Irlanda foi uma experiência incrível e inesquecível. O primeiro show na Rússia foi uma verdadeira loucura. Na noite anterior tocamos em Helsinki na Finlândia e depois do show sem dormir pegamos a estrada, passamos o resto da noite e o dia inteiro viajando, umas 20 horas. Chegamos em Petrozavodsk quando a noite caiu. Fazia muito frio mesmo. Não deu tempo de comer, estávamos famintos, tocamos assim que chegamos pois chegamos atrasados, aliás isso aconteceu muitas vezes, não ter tempo de comer de dormir de chegar e já tocar etc. Tocamos espremidos no canto do bar que era grande comparado com os lugares que tocamos e estava lotado. Suamos muito como de costume e esquecemos do frio que fazia lá fora. Não sei explicar, foi muito bom ter estado lá e conhecido aquelas pessoas. A Rússia até então era uma coisa tão distante, parecia inacessível até. Muitos bons momentos tivemos, conhecemos muitos novos lugares como Hungria, Slovênia, República Checa, Estônia, e pessoas, e revimos tantos outros que gostamos tanto, como a Polônia, Finlândia, Noruega, Dinamarca, Suíça, Holanda, Alemanha etc. Os bons momentos são sensações que não são fáceis de traduzir em palavras, é tudo em si. É o fato de estarmos tocando, trocando idéias, informações, conhecendo. Vivendo um dia bem diferente do outro intensamente.

João Gordo disse na Mtv que o show da No Rest foi do caralho. O que a banda achou disso e como foi tocar com os Ratos na Europa?
Que bom que ele gostou, é sempre bom saber que as pessoas gostam ou gostaram de um show. Nós fizemos 3 shows em Amsterdan, e tocamos com Ratos de Porão numa squat chamada Friekens, onde tocou também Olho de Gato. Eu posso dizer que nenhum de nós assiste TV de um modo geral e que não gostamos da MTV, o que não é nada original ou radical, não quero aqui me fazer de uma coisa ou outra com uma coisa tão batida e hoje muito fácil de criticar. Mas simplesmente a programação é ruim e a indústria fonográfica é uma das maiores do mundo, e que tudo envolve e gira em torno de lucros para as gravadoras e etc. etc.. Então ficamos sabendo que o Gordo falou de nós “no ar” por outras pessoas. Mas lá mesmo no show, falamos com ele, e foi ótimo ter a oportunidade de falar entre outras coisas, a respeito de tudo isso inclusive, da opinião dele sobre a MTV. Nós da No Rest nos criamos ouvindo Ratos, entre outras bandas é claro, fez parte da nossa influência como para muitos adolescentes daquela época. O que quero dizer é que respeitamos Ratos por tudo que eles já representaram principalmente, independente de não concordarmos com essa ou aquela idéia. Na verdade acho muito difícil e até perigoso a concordância absoluta entre as pessoas. Essa squat havia sido uma fábrica há muitos anos atrás. O show foi numa salinha, nunca tínhamos visto Ratos num local tão pequeno. Também não havia palco, o que eu particularmente prefiro. Foi fodasso.
A banda Ação Direta disse que umas das piores histórias que ouviram foi a de que vocês foram barrados numa fronteira sendo impedidos de entrar num país, o que implicou no cancelamento de shows e num prejuízo grande para a tour. Poderiam citar essa história e se isso tem haver com alguma burocracia do país?
O país é a Inglaterra, novidade.... e outras bandas inclusive o Ação Direta também passaram pela mesma situação tentando entrar lá. Foi assim, vínhamos da Bélgica onde havíamos tocado num festival crust/punk em Liege. Viajamos para o Porto de Callais na França para pegarmos o barco para a Inglaterra onde íamos fazer 5 shows. O controle britânico é feito lá mesmo na França, mas antes de passarmos pela polícia compramos as passagens. Ao verificarem nossos passaportes começaram com mil perguntas e ali mesmo pudemos perceber que não importavam as respostas, tipo eles tentavam achar um problema, quando viam que nossa resposta era satisfatória inventavam outro. Resultado, ficamos detidos!! Isso mesmo, como prisioneiros, impedidos de sair de uma sala, e com mais outras pessoas que também aguardavam o “julgamento” deles. Nos trataram super mal, nos fizeram esperar horas e horas e ainda vieram com piadinhas estúpidas e insinuações graves do tipo, que poderíamos ser terroristas. Nem tenho palavras para descrever tamanha escrotice e o pior, os caras foram totalmente injustos e na verdade foram eles que agiram de má fé e contra lei, se é que existe uma. Eles disseram que não acreditaram que estávamos indo apenas para tocar, disseram que queríamos ficar no país. Em primeiro lugar isso não era a verdade e mesmo se fosse, e daí? Só eles podem invadir, explorar, dizimar culturas, se apropriar e inclusive viver em outras terras. Isso é revoltante. E em segundo lugar no momento que eles afirmaram que iríamos ficar, se caracteriza aí uma calúnia, pois como já disse, não iríamos. Então da mesma forma não pudemos ir para a Escócia, que faz parte do Reino Unido, onde faríamos 4 shows. E quase não foi possível irmos para a Irlanda pelo mesmo motivo. Viajamos direto para a Alemanha, onde temos grandes amigos. Ficamos acho que uns 9 dias em Offemburg, ligamos para as pessoas na Inglaterra e Escócia, ficou todo mundo muito puto e foi então que na Irlanda os caras disseram que fariam tudo para que pudéssemos ir. Só podíamos passar por cima da Inglaterra, ou seja de avião o que torna mais caro e ainda com a chance de sermos bloqueados novamente e perdermos as passagens. Os caras lá disseram que os shows pagariam as passagens. Pensamos e decidimos arriscar, a vontade de tocar na Irlanda e conhecer o lugar era muita. Viajamos para Amsterdam de onde saia o avião. Ao chegarmos Na Irlanda a polícia nos parou. Que sensação horrível, ficamos angustiados e com receio de enfrentarmos aquela situação novamente. Mas felizmente depois de horas de conversação os caras permitiram que entrássemos com a condição de que não poderíamos ir para a Inglaterra dali e de que saíssemos do país depois dos 4 shows, colocando no nosso passaporte data de saída obrigatória. Ainda bem que deu certo, porque valeu muito ter conhecido a Irlanda.
Falem sobre o que a banda tem produzido, projetos e quais são as expectativas de lançamentos, shows e novas turnês.
Então, acho que já falei bastante do que temos feito... quanto as próximos passos não temos nada definido ainda exceto ensaiar, fazer mais músicas e gravar.
Mensagem para os leitores do nosso site:
É muito bom termos oportunidades como essa de falar o que pensamos e sobre o que estamos fazendo. Muito obrigada mesmo. Se alguém quiser entrar em contato é só escrever. No mais como eu já disse, acho que já falei bastante e a mensagem está nas linhas. Valeu!

Contatos:
e-mail: norest@norest.com.br
site: www.norest.com.br


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