Entrevistas: Cólera
Por Bruno Feijão Genaro

Já são 25 anos de banda, certo? Fale um pouco de como se formou a banda...
A banda começou em outubro de 1979, na Estação São Bento do metrô, onde eu freqüentava desde 1975 tocando violão. Conheci o Helinho, que também estava com um violão na mão e estava saindo de uma banda (ele
era baixista do NAI). Trocamos idéia e resolvemos montar uma banda onde eu tocaria baixo e ele guitarra. No início não tínhamos o baterista, foi quando surgiu um show para tocarmos (12/dez) na Escola CETAL, que entrou o Pierre, meu irmão, pra tocar bateria.

Quais as principais influências do Cólera naquela época e quais são as principais influências atualmente?
Quando formamos a banda o estilo era mais parecido com um punk country, com influencias de rock'n roll, Dr. Feelgood, Cheap Trick etc. Só no ano seguinte, 1980, quando escutei The Clash (a principal influência) que a banda passou a ter sua química pronta. Letras mais objetivas, culturais, politizadas e um som mais ritimado, com músicas como Suburbio Geral, Quanto Vale a Liberdade etc. Hoje temos uma pitadinha de influência de New Model Army.
Como o público tem respondido ao "Deixe a Terra em Paz"?
O álbum foi muito aplaudido. Até hoje não vi críticas.
Como foi a produção do clipe "Deixe a Terra em Paz" e quais as expectativas para o clipe "Viaduto"?
O clipe da música "Deixe a Terra em Paz!" teve uma produção grande, tipo set de cinema. Contamos com 2 grandes profissionais (amigos), Márcio Alexsunder na direção, (que também fez o design gráfico do CD) e Lula Maluf (conceituado diretor de luz de bandas pelo Brasil) na direção de luz e coordenação técnica. Foi um trabalho de equipe, com locações e muita dedicação. Passamos um dia inteiro montando o set e, no dia seguinte, das 7 às 21 h. gravando. O mais difícil foi tocar junto com o CD na velocidade 50% mais lenta, para dar aquele efeito rapidinho em algumas cenas. Fizemos as gravações no Hangar 110, no piso (não no palco). Já o clipe de Viaduto tem Marcos Vicente, que conheço desde 1982, na direção. Foi gravado no mesmo local onde compus a música, na curva do minhocão, ao lado do Largo do Arouche, próximo da estação Sta. Cecília. O clipe retrata a letra de forma direta, mostrando indigentes, prostitutas, a noite de Sampa e alguns punks como figurantes. Está muito bem produzido. Vamos enviar para MTV e outros canais de clipes.
Como foi formar uma banda em plena Ditadura Militar?
Hoje costumo dizer que tocamos para acordar as pessoas. Naquela época tocávamos para desafiar o governo militar, com letras como João, feito para o então presidente João Figueiredo ou como Gritar, para afrontar a tropa de choque nas passeatas. Sofremos muita repressão e perseguição. Ser punk no Brasil naquela época era um desafio de vida ou morte.
O que você achou da tributo ao Cólera "Viralatas", qual música você mais gostou?
Gostei muito da versão de Dia e Noite do Rasta Knast.
E aquele caixa lançada em comemoração de 20 anos da banda?
Sempre mantive a postura de registrar tudo que desse. Shows, ensaios etc. O aniversário de 10 anos passou batido já que estávamos numa época de crise nacional e de dificuldades na banda, mas os 20 anos estavam chegando e não podiam passar batido. Organizei o evento no Hangar 110 e consegui com a Devil Discos, o caminhão estúdio (unidade móvel) para gravar tudo em 16 canais. Foi um trabalho gratificante. Tivemos o Marcelo Pompeu na direção da gravação e do PA. O show foi fantástico, casa lotada, muita energia. Depois fiz a montagem do book com alguns dos materiais que guardo (arquivo da banda). A Caixa é um registro do aniversário direcionada para os fãs mesmo. Tipo colecionador.
Os boatos das intrigas com o Clemente (Inocentes) e João Gordo (RDP), são verdades? Vocês não se falam
Nunca tive problemas com o Clemente. Acabamos de fazer uma produção juntos da banda Núcleo Zero. Já com o Gordo, foi um período sem se falar que já foi resolvido faz tempo.
Como é ser uma das (se não a) principal banda de punkrock do Brasil, servindo de influencias pra várias bandas e marcando a história do punk no Brasil?
É um prazer. Estamos fazendo muito bem nosso papel. Espero que dure mais 25 anos.
O que você acha da cena punk no Brasil e no mundo?
Já tivemos um movimento punk muito forte no Brasil, na década de 80. Hoje como cena, o punkrock tem um papel importantíssimo na formação política/cultural das gerações que vão surgindo. Vejo pelo lado positivo, ainda bem que temos bandas antigas atuando e bandas novas se formando.
"Gás, bomba... Vamos enfrentar [...]". Você participa de protestos frequentemente?
Esta música referia-se a época em que eu freqüentava todas as passeatas contra a ditadura. Passeatas de estudantes, bancários, professores, etc. eu sempre estava lá. Foi entre 1976 e 1982.
Quais foram os shows mais marcantes na carreira do Cólera?
É mais fácil dizer os que não foram tão marcantes. Temos sempre grandes apresentações aqui e no exterior. Mas vou citar dois grandes eventos: em Juiz de Fora, 1986, para 25 mil pessoas e na Antuerpia (Bélgica), o primeiro show da tour de 1987.
Quais as novidades para este resto de 2005?
Lançamento do CD "Primeiros Sintomas" com as 20 primeiras músicas da banda (13 inéditas até hoje); lançamento do DVD de 25 Anos; gravação do clipe de Circocore, dentro de um circo; show manifesto contra a violência, no segundo semestre (gratuito), local e data ainda a confirmar.
Os integrantes tem trabalho fora do Cólera?
Sim. Não vivemos da banda.
O que você acha dessa nova moda chamada "EMO"?:
As bandas autênticas de punk são árvores frutíferas, bandas de emo são ervas daninhas. Assim é a natureza. Pra mim tudo é parte de um processo. Muitas destas bandas emos vão sumir e bandas como o Cólera, Ação Direta, Agrotóxico e Phobia ainda estarão dando frutos.
Se você fosse uma bomba, explodiria o que? Quem? A onde?
A mente destrutiva de líderes gananciosos. Todos eles ao mesmo tempo e sem aviso prévio.
O Cólera foi a primeira banda punk do Brasil? Muitos dizem que foi o Condutores de Cadaver, Restos de Nada e Al-5... Afinal quem foi?
Não. O Cólera não foi a primeira banda punk do Brasil. O que se sabe é que foram Restos de Nada (SP) e AI-5 (ABC) as primeiras a surgirem na mesma época.
O que melhorou e o que piorou desde os tempos que vocês começaram?
Antes era dificílimo montar banda, local pra ensaio, gravar, lançar, distribuir. Havia poucas bandas e os espaços pra tocar eram raros e duravam pouco tempo. Hoje, tudo isso está bem melhor. O cenário do rock alternativo em geral está amplo, temos ótimas bandas atuando (claro que tem coisas ruins também), temos milhares de estúdios
de ensaios, casas, etc. A diversidade é um riqueza única.

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Faça você mesmo. Paz e saúde pra todos.

Contatos:
site: www.colera.org
e-mail: colera@colera.org

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