Entrevistas: Marcos Ribeiro (Rota 77)
Por Bruno Feijão Genaro

Pra começar, a clássica pergunta, fale um pouco de como surgiu o Rota77.
Há uns quatro anos a gente queria fazer algo na internet. Como eu mexo com rádio, acabei descobrindo uma webradio que tinha na época e falei com o cara para nos arranjar um horário na grade dele. Ele topou e a gente começou a fazer o programa com uma hora de duração. A gente gravava aqui mesmo em casa num gravador cassete e passava para um computador velho que eu tinha. Depois eu mandava pro servidor da rádio e ele colocava no ar.
E como você achou o Barata, antes de montar a rádio você já tinha ele em mente pra ser seu parceiro?
Bom, a gente se conhece só há uns vinte anos, né?
Por que a Punk Radio saiu do ar, você sabe se vai voltar? Como foi a entrada do Rota77 na Radio Base?
Ó cara, se encheu de fazer a rádio e não faturar nada com isso. O que deixou a gente puto é que ele pelo menos poderia ter nos avisado: "olha, gente, não dá mais, tá foda de levar isso aqui. Vou parar com a rádio". Iria até me propor a tocar a rádio se o problema fosse esse, mas acho que ele não iria gostar do que eu iria fazer.
Quem faz a seleção musical da rádio, vocês, os ouvintes, como que é feito tudo isso?
Isso é com o Barata. Vai do bom humor dele. Quando ele está inspirado, ele chega e diz: "hoje vamos tocar só banda com mais de 10 anos de estrada", "hoje vamos fazer dois blocos só com banda hardcore". Aí eu digo: "não rola não, véio. Hoje minha tia não fez bolo pra gente comer e só tem pipoca de microondas". E ele, "então vamos fazer só um bloco só de harcore", (risos). A verdade é que o Barata é quem faz porque ele tem mais tempo de ouvir o que chega de novo para gente, sem contar que 90% do acervo é dele, logo sabe o que tem em cada um dos discos, né? Às vezes ele ouve faixa por faixa dos CDs que vamos tocar no programas. São 200 e tantas músicas para escolher 15 ou 16. Ele tem mais faro para descobrir o que é legal rolar no programa ou não do que eu. O meu negócio é editar tudo que a gente grava. Às vezes fico uma hora só para fazer a mixagem de uma música na outra. Sou meio chato com isso e não deixo isso pra ninguém. Modéstia parte, nosso programa é bem editado. Apesar de ser um programa de Punk Rock, tem de fazer a coisa com critério, né? Agora ficou melhor ainda porque a gente grava no estúdio do Serjão e ele nos dá uma puta força, tem banda e conhece muito do assunto também. E ainda tem o Bill Mad, que sempre traz umas novidades pelos picos por onde ele passa.
Vocês abrem espaço pra bandas novas?
Essa é a intenção do programa, abrir espaço para novidades. Sem medo de errar, fomos o primeiro programa de rádio na internet a tocar bandas punks brasileiras. Esse é o nosso "target". Claro que tocamos bandas gringas, mas damos preferências às que não cantem em inglês. Se cantarem em finlandês, aramaico, espanhol, italiano, chinês, está valendo também. Outro dia recebemos um compacto duplo de uma banda punk finlandesa, que foi mandada pelo Risto, quer tem uma gravadora de discos de vinil na Finlândia e é amigo do Barata há mais de 10 anos.
Fale um poco de como foi a festa de aniversário de 1 ano da Rota77.
Foi uma coisa de louco! Nunca mais faço isso! (risos) Três noites de shows seguidos. Mais de 30 bandas. Sei lá quantas horas de show. Quase 900 espectadores. E tudo isso sem apoio de patrocinador, sem anúncio na grande mídia, sem porra nenhuma. Só com o apoio do nosso site e o boca-a-boca de quem nos ouve. Veio gente até do Matogrosso ao show. Pode isso?
Vocês pretendem fazer a festa de 2 anos, vai ter vários dias também, como vai ser feito a seleção de bandas?
Cara, a gente não faz a menor idéia ainda (risos). A gente queria fazer no Bal, mas ele fechou, né? Talvez seja num bar da Zona Leste. Mas a gente nem pensou nisso. Nós temos um problema, sabe?
Cólera, Ação Direta, Garotos Podres, essas foram as bandas mais recentes que passaram pelo Rota77, quais bandas mais já fizeram parte do programa e quais vocês tem em vista agora?
Olha, tem um monte que a gente quer por ao vivo no estúdio. A lista é enorme! Sem contar as que já nos procuraram para participar. A fila de espera está gigantesca. Mas se a gente conseguir organizar a nossa a agenda vamos colocando todas aos poucos na programação. Eu não tenho pressa. Vamos ver como rola o projeto de Tv também, né?
E como foi essa parceria com a TV Rock?
Ainda não foi. A gente gravou dois pilotos e colocamos no ar. Vamos ver no que dá, né? Eles nos procuraram interessados em fazer o Rota na Tv. Viram que temos um público muito cativo e "fiel" e nos convidaram para fazer uma versão para a TV. Estamos a 3 meses projetando e tal. Não sei se rola ainda porque fazer Tv é muito mais complicado. tem o lance da imagem, equipamento, locação para as filmagens, edição do material e - o mais complicado - botar o programa no ar. Na internet então, nem se fala. Essa coisa de web Tv ainda está muito embrionária. Tem que ser muito macho para querer fazer Tv na internet e ter muita fé de que vai dar certo. Há ainda muitas dificuldades para se colocar imagens em movimento na rede: tamanho com arquivo que é enorme, conexão das nossas linhas telefônicas, velocidade de conexão da maioria dos internautas que ainda é baixa, sem contar os problemas técnicos que emissoras como a TV Rock enfrenta por causa da pouca infra estrutura que internet brasileira possui. Em todo caso, a gente tem de tentar, né? Se não der certo, a gente continua só na webradio mesmo, que é já é um sistema praticamente consolidado tecnicamente e até comercialmente.
E aquelas reportagens que estão no site, você pretende fazer mais? A entrevista com o Antonio Bivar ao ar na rádio?
Com certeza. Falta apenas descobrir como a gente acha o Bivar porque perdemos o telefone, (risos). Na verdade, eu quero entrevistá-lo novamente para ele dar um "parecer" da cena cultural alternativa 5 anos depois. Muita coisa que ele "profetizou" ali está acontecendo agora no movimento punk. Olha nós aqui, né? O "A um passo do Fim do Mundo", na minha modesta opinião, foi o ponto de partida da retomada do movimento punk nesta década, se é que a gente pode dizer assim. A cena estava muito perdida, o pessoal estava muito isolado, sem comunicação um com o outro. E naquele festival o pessoal começou a se reunir de novo, de uma certa maneira e a voltar a travar contato com gente de outras localidades. Digamos que foi uma espécie de "Orkut" do movimento. E a internet foi o grande catalisador desse fenômeno.
Estava lendo no site que você já participou da imprensa diária paulistana nos jornais Notícias Populares, Shopping News, Diário Comércio e Indústria e nas rádios CBN, Globo, Metropolitana e na produtora Rádio 2. Você já fez algum trabalho fora da Rota 77 falando (com músicas ou não) sobre o movimento punk especificamente?
Não. Mas já fiz programa semanal sobre Música Popular Brasileira na Rádio Metropolitana.
O que você acha do movimento punk atual, melhorou ou piorou?
Melhorou, o pessoal tem uma mania de falar que os anos 80 eram legais. Eram, não para o movimento Punk. Para a cena punk, os anos 80 foi um "atraso", por assim dizer. Os 90 então, nem se fala. Se houve algum avanço no movimento, isso aconteceu com a internet. Antes que algum gaiato diga que eu falei que as bandas foram um atraso nos anos 80, quero deixar bem claro que estou falando do contexto: aquela situação de brigas com a polícia e com os carecas de ficar hostilizando outras correntes que não eram punks, de politizar demais o movimento, de não querer se confrontar os verdadeiros inimigos. Se sobrou alguma coisa de bom foi a lição que o pessoal daquela época aprendeu as duras penas e hoje pode ensinar à molecada, que é muito heterogênea: uma parte tem essa visão histórica de ver o Punk rock como um movimento cultural importante em nosso país e outra que acha que o radicalismo dos anos 80 vai nos levar a algum lugar, como de fato nos levou à estagnação e ao atraso. É preciso ter bom senso e enxergar que o mundo mudou e muito. O pessoal do movimento hip hop é muito mais novo do que os punks. Mas como tiveram cabeça para se organizarem e se unirem estão num estágio muito mais avançado do que nós. Daqui a uns 5 ou 10 anos a gente consiga chegar no patamar que eles estão agora. Pelo menos o movimento Punk está dando seus passos para frente, isso é importante.
Para as bandas que querem participar do Rota77, como podem entrar em contato?
É só mandar seu CD ou fita para o endereço do correio que está no site (duas cópias). se tiver com uma qualidade razoável de Šudio, a gente rola sem problema. Mas a gente só toca punk rock e hardcore, hein!
Quais os projetos do Rota 77 para o futuro?
É tentar ficar no ar. Os custos de produção estão ficando altos e a gente está tentando buscar parcerias para sustentar o programa. Não tem mais essa de: "se precisar, eu tiro do meu bolso pra manter a banda". Isso acabou. tem de ser objetivo com o dinheiro, não enxergá-lo como inimigo. É uma coisa que eu particularmente brigo com as bandas mais "radicais". Porra, você sai de casa, gasta gasolina, fura pneu, arrebenta corda do baixo, queima o amp e você tem que arcar com a despesa e os outros se divertem. É justo? Não, não é. Tem de ter uma contrapartida para você se animar a continuar na música, né? Ninguém vai ficar rico tendo banda punk, mas também não pode se endividar. Felizmente, o Serjão nos chamou e abriu as portas do seu estúdio para que a gente gravasse o Rota 77 em troca de divulgação do negócio dele em nossos programas. Nós ganhamos em qualidade e ele ganhou em termos de imagem e projeção para o Trextúdio. Além do mais ganhamos um amigão que era mais um cara que a gente conhecia de vista dos picos. Essa parceria veio em boa hora e há de durar muito tempo porque sem ela não tínhamos mais para onde expandir o programa. Parece um paradoxo um programa de Punk Rock dizer este tipo de coisa, mas não é. Somos profissionais antes de tudo. Todo trabalho bem feito que a galera gosta merece ir mais longe sem perder a qualidade. Não é demérito nenhum. Pelo contrário. A gente faz o programa porque gosta de rádio e de Punk Rock e aprimorar o programa é a melhor forma de agradecimento e, mais que isso, uma forma de respeitar o ouvinte que nos prestigia. Eu espero que a garotada que vier depois de nós faça coisas maiores e melhores do que a gente conseguiu fazer. O mais difícil a punkaiada já fez, que foi começar a construir uma mídia própria, sem depender de outros meios de comunicação. O resto é colóquio flácido pra ninar bovino.
Agora é com você. Gostaria de agradecer pela entrevista e parabens pelo ótimo trabalho que você e o Barata vem fazendo, que o Rota77 continue firme e forte aí por anos e anos. Agora, deixe uma mensagem pra finalizar.
Só lembrando um velho refrão de uma música de uma banda punk dos anos 80, cujo nome não me lembro: "Faça você mesmo, faça agora / Não fique aí parado, faça agora". A essência do movimento punk é essa: Faça você mesmo. Não vá esperar que os meios de comunicação tradicionais vão abrir espaço para o que você quer mostrar. Só vão fazer isso a partir do momento que você se der ao respeito e provar que ser punk não é ser arruaceiro e sim uma pessoa que não aceita o que está aí, mas ao mesmo tempo sabe o que quer. Afinal, ser punk não é levantar moicano ou usar coturno rasgado. É agir com ética, ter postura e atitude diante da vida. É isso.


Contatos:
site: www.rota77.cjb.net
e-mail: rota77@hotmail.com

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