Entrevistas: Phobia
Por Bruno Feijão Genaro - Revisão: André Demente

Como surgiu o Phobia, já houve mudança de formação, quem integra a banda atualmente?
O Phobia surgiu em 1993 com Claudião e Alê, que trabalhavam juntos e queriam ter uma banda de rock para desabafar e se divertir. Como as maiores influências do Claudião eram e ainda são as bandas punks nacionais antigas, foi natural que o Phobia começasse a correr cada vez mais para esse lado. No início o Phobia tocava apenas covers de bandas punks e de rock nacional, até que em 95, com a entrada de Demente e Requeijão, o Phobia começou a trabalhar em composições próprias e definir melhor a sua cara. Já houveram várias formações nesses últimos 12 anos, inclusive culminando com a saída do Alê em 2003 e do Requeijão em 2004. Hoje em dia o Phobia é Claudião na voz, Demente e Esfiha (Ativistas) nas guitarras, Pateta no baixo e Ricardinho na bateria.
Quais as principais influências da banda?
Punk-rock e hardcore do Brasil e de várias partes do mundo, rock dos anos 50 e música de contestação em geral, seja rap, reggae, rock, etc...
Já são mais 10 anos de banda, é possível que o Phobia ainda tem mais 10 anos pela frente?
As dificuldades são muitas hoje em dia, muito maiores do que quando nós começamos, pois, apesar de existir uma cena “underground” mais estruturada hoje, antigamente não havia o fenômeno da “mercantilização do punk” que existe hoje nessa escala. Hoje em dia as bandas realmente comprometidas com o espírito punk (autogestão, quebrar regras, criatividade, faça você mesmo...) não tem espaço nas casas de shows ou na mídia, pois o punk de butique gera muita grana e tem a preferência, além de ser de muito mais fácil sua assimilação por não exigir uma postura crítica de seus ouvintes. É uma luta de Davi contra Golias, em que os autênticos tem que lutar por cada espaço, enquanto que o “punk-rock-capital-inicial-melódico-inofensivo” tem muito mais espaço nas rádios, casas de shows e revistas de rock, pois não tem uma postura real de contestação e, portanto, gera muito mais lucro. Por todas essas dificuldades, é difícil levar uma banda punk independente e sem rabo-preso com ninguém adiante, muitas vezes dá vontade de desistir, de dar um foda-se pra tudo e ir cuidar de outros projetos, mas o punk-rock está no nosso sangue, nos deu uma visão do mundo, amigos, e algo pelo que vale a pena lutar. O que podemos dizer para você é que não temos planos de parar por esses tempos.
Apesar da banda já estar a um bom tempo na estrada, vocês não tem muitos trabalhos lançados, certo? Fale um pouco sobre os trabalhos já lançados, tem algum que vocês mais gostaram?
Nós temos apenas um cd próprio lançado, o “Ousar Lutar, Ousar Vencer!”, que foi gravado em 98 e lançado originalmente em 2000. Estamos lançando agora o segundo disco, chamado “Antes Morrer de Pé que Viver de Joelhos”, que estará nas lojas em outubro. É natural que os últimos trabalhos sempre agradem mais à banda, pois estão mais sintonizados com nosso momento atual, então estamos aguardando com muita expectativa o lançamento desse novo disco. Alguns dos trabalhos recentes que mais nos agradaram além do disco novo (que foi a última gravação com a formação “clássica” Claudião, Alê, Demente e Requeijão) foram as músicas que gravamos em nossa tour no Chile, a versão que fizemos do Kães Vadius para o tributo deles e 3 músicas recentes que gravamos e ainda não foram lançadas que são Sobreviver (que só havia sido lançada ao vivo na coletânea Festival SP Punk), Direito à Preguiça (Restos de Nada, que também havíamos lançado uma versão ao vivo na segunda prensagem do “Ousar Lutar...”) e Sandina, dos Replicantes.
"Ousar Lutar, Ousar Vencer" foi reprensado recentemente, a primeira prensagem teve uma boa repercussão? E a segunda como anda?
Sim, a primeira prensagem se esgotou em pouco mais de um ano, nada mal para uma banda que não tem um selo e nenhuma estrutura mais profissional por trás. A segunda prensagem está indo muito bem e estamos muito felizes com a quantidade de cds que temos vendido no interior de SP e no exterior. Álias, por não termos uma estrutura maior para vender e distribuir nossos cds (nós mesmos fazemos tudo), curiosamente nos tornamos uma banda que vende tanto ou mais no exterior do que aqui no Brasil. Atualmente nós temos nossos cds distribuídos na França, Argentina e Espanha, onde o “Ousar Lutar...” foi recentemente lançado pela UHP discos.
Quais os planos do Phobia para o futuro?
Nesse momento, estamos trabalhando no site da Rebel Music que deve estar pronto logo mais. Estamos fazendo um grande esforço para, até o fim do ano, reestruturarmos o selo e podermos apresentá-lo como uma alternativa real de lançamento/distribuição para outras bandas punks e de rock de contestação.
Você disse que já foram para o Chile, já saíram em tour para outros países além do Chile?
Sim, em 2002 fomos para o Chile na Anarkotour 2002, onde tocamos em vários shows e inclusive no festival “Vitor Jaras” organizado pela juventude socialista e no 3º Encontro Anarcopunk Chileno. Foi uma experiência animal, um grande intercâmbio de idéias e também serviu para nos mostrar como o Brasil é atrasado em termos de estrutura underground. É muito curioso, pois lá fora ser underground é uma opção e não uma condição, ao contrário daqui, onde muitos só estão no underground até que lhes surja uma chance de serem a nova “batata da onda”. Além do que, pudemos perceber como as coisas no Brasil são estupidamente segmentadas e divididas em panelinhas. Lá fora nós tocamos com punks, anarcopunks, skinheads anti-fascistas (Rash / Sharp), straight-edges... coisa que aqui no Brasil não acontece porque aqui todo mundo acha que é o dono da verdade.
Fale um pouco de como foi participar do festival SP Punk em 1997 e 2002.
Nós tocamos em todos os Festivais SP Punk, menos em um, que, se não me engano, foi o de 2003... tocamos também no “A um Passo do Fim do Mundo” e no “Fim do Mundo”. Todos esses festivais foram importantíssimos para a história do punk-rock brasileiro, pois há uma grande carência do público por assistir a tantas bandas legais juntas. É uma pena que não ocorram mais iniciativas como essas, porque o punk brasileiro tem uma história tão rica que merecia ao menos um festival bem estruturado a cada 3 meses. A galera tem que se mobilizar mais também, porque só os coroas fazem a correria... a galera mais jovem tem que levantar a bunda da frente do computador e viver um pouco mais.
Quais dos dois vocês mais gostaram?
A primeira vez é inesquecível...
Explique por que a banda se chama Phobia.
Phobia é um sentimento que vai atacar todos vocês, Phobia de ser dominado, cadastrado e vigiado, Phobia de não enxergar que a sua liberdade é ilusão, Phobia de não ter coragem de mudar o que virá... e por aí vai.
Vocês são anarquistas? Como a anarquia pode ser aplicada nos dias de hoje?
Sim, somos anarquistas e acreditamos que o anarquismo continua uma opção atual. É uma postura anarquista a de não aceitar a hierarquia como base da nossa organização social, pois o poder corrompe. Dito isso, é importante ressaltar que o anarquismo não é uma fórmula mágica, é um aprendizado que é distinto para cada realidade social. No nosso caso, além das atitudes anti-autoritárias, ecológicas e de caráter classista (que fazem todo o sentido num país que ainda é colônia do norte, que a polícia mata, os políticos roubam impunemente e que o crime compensa para os ricos e as multinacionais), faz-se necessário perceber que ainda vivemos na ditadura, só que agora disfarçada. É a ditadura do capital, em que os países e conglomerados que tem dinheiro mandam no mundo, em nossas vidas, nossos hábitos, nossos recursos naturais, nosso presente e nosso futuro. Escolhem a música que você escuta, o que você vê na tv, manipulam a mídia e a política a torto e a direito. É preciso mostrar que o anarquismo não é utopia, mas uma opção viável, racional e ecológica, baseada na organização horizontal da população para proteger seus interesses contra os que detém o poder econômico e político. As pessoas tem que perceber que existe possibilidade de mudança, que o mundo não precisa ser essa merda que é (apesar dos que tentam nos fazer crer no contrário) e que as atitudes de cada indivíduo podem influenciar às pessoas que estão próximas, gerando um movimento, uma bola-de-neve revolucianária.
O que você acha do movimento punk no Brasi?
O movimento já passou por várias fases e creio que estamos numa das piores agora... não interessa se essa ou aquela banda punk tem algum espaço na mídia ou nas lojas ou nas casa de shows, porque uma andorinha só não faz verão, é necessário criar uma cena forte, com distribuidoras, selos, espaços alternativos e mídia, independente do que é “comercialmente viável” ou, em outras palavras, do que é facilmente vendável para a grande massa. Esse nos parece ser o grande problema, pois, infelizmente, as bandas que tem uma estrutura maior parecem, na maioria dos casos, mais interessadas em manter os seus privilégios do que em construir algo comum ao movimento. É só você parar para pensar em quantos selos punks há no Brasil, pouquíssimos, e a maioria só lança seus próprios materiais, não organiza coletâneas, não distribui material de outras bandas menores e não tem um projeto para o futuro que não seja inserir o seu “produto” no mercado. Ou seja, estamos fudidos! Temos uma história riquíssima, ótimas bandas, muitas consagradas no exterior, mas não temos sequer uma distribuidora eficaz ou um fanzine estruturado e de maior alcance, passaram-se mais de 20 anos e continuamos no “cada-um-por-si”. Mas nós ainda acreditamos que a situação pode ser transformada.
E no mundo?
Não creio que essa seja uma questão fácil de responder, pois são muitas realidades diferentes, mas o que vimos no Chile e os amigos que nos escrevem da Europa e Argentina nos mostram uma cena, no mínimo, mais estruturada e mais unida que a brasileira. Uma das coisas que particularmente me chamou muita atenção foi o fato de que fora do Brasil os punks, skins (anti-fascistas) e straight-edges andam juntos e realizam atos, fanzines e shows juntos.
Desde os tempos que vocês começaram ouve alguma mudança sonora na banda?
Cada vez estamos mais preocupados em fugir da fórmula pronta do punk-rock e experimentar, romper barreiras musicais. O desafio é fugir da fórmula e permanecer com uma postura, atitude e sonoridade punk, só que sem ficar se repetindo ou repetindo chavões batidos.
Uma das música que mais gosto no CD de Tributo ao Cólera é a que vocês tocaram (Diretos Humanos), fale um pouco de como foi participar desse tributo.
Foi uma honra e temos muito orgulho desse trabalho.
Em uma entrevista ao site amnésia.kit.net, você diz que o Blind Pigs usa o nome do punk para vender CDs. Você ainda acha isso?
Sim. É fácil ser punk na capa do disco, difícil é ser punk todo dia.
O que achou do fim do Blind Pigs? e dos Flicts?
Quanto ao Blind Pigs, já foi tarde. O Flicts eu acho uma puta banda, mas entendo e concordo perfeitamente com a postura do Rafael.
Esse já é um assunto antigo, mas eu gosto de saber do que os punks da é poca pensavam a respeito. Em setembro de 2001, Donald vocalista do Gritando HC faleceu. Apesar de o Gritando HC ter o nome meio queimado na cena punk, vocês eram próximos? O que achou do desaparecimento da banda e o que achou da morte de Donald?
Bom, nós convivemos um tanto, principalmente no início do Gritando, depois eles foram se afastando cada vez mais, no meu entender, da ideologia punk e se inserindo no mercado. Pessoalmente, são pessoas legais e eventualmente nos encontramos por aí, mas nossa visão sobre ser punk é diferente. Quanto à morte do Donald, acho triste, era um cara que tinha muita ânsia de viver e muita personalidade, e é sempre triste alguém morrer tão jovem e de maneira tão trágica.
O que você acha de bandas punks que cobram altos cachês?
Acho que cada caso é um caso, mas acho legal a banda sempre ter em mente se o preço dos ingressos é acessível para a maioria dos seus fãs... é uma atitude de respeito com quem curte seu trampo.
Anarquia em si, prega a liberdade de todos, incluindo a libertação animal. Você concorda com isso?
É errada a forma como o ser humano “usa” os animais como se fossem objetos que não tem sentimentos. Sou contra o uso de peles, a venda de animais e experiências com animais na maioria dos casos, mas, em algumas circusnstâncias, acho que não há escapatória. Sou contra esses testes de cosméticos em animais, mas sou à favor de experiências com ratos para pesquisas sobre câncer, por exemplo (se é que elas existem...). Temos que ter bom senso, animais não são objetos inanimados que não tem sentimentos, mas ao mesmo tempo, não é nem um pouco legal perder uma pessoa amada para o câncer. Com certeza ratos não valem a vida do seu pai, sua mãe, sua esposa, mas isso não quer dizer que eles estão aí para brincarmos de Deus com eles.
A cena independente brasileira vem crescendo absurdamente. O que você acha dessa onda do momento, emo?
Já foi o Axé, depois o sertanejo, depois o pagode, agora o emo... é só mais uma moda, os autênticos continuarão aí depois que isso passar.
Alguns anarco-punks tem sido muito extremo em relação a algumas bandas. Boicotam bandas como Garotos Podres, Calibre12, Ratos De Porão, Exploited, Discharge dentre outras. O que você pensa a respeito?
Penso que cada caso é um caso... dá pra você apoiar uma banda que diz “Fuhrer, meu fuhrer, onde está você?”, como fez o Garotos Podres? Isso é nazista na cara larga, não sei qual a intenção de alguém ao escrever isso, mas com certeza não foi a de propagar a fraternidade entre os homens e acabar com o racismo e nós não vemos isso com bons olhos, mas também acho que muita gente é manobrável e se apega à qualquer boato como se fosse uma verdade onde eles podem criar um gueto e um inimigo comum para aglutinar pessoas. Eu acho que existe uma onda de boicotes que são infundados... as pessoas tem que aprender que uma banda tem que ser autêntica, mesmo que com isso ela deixe de ser o que você gosta.
O que mais incomoda os membros do Phobia no sistema atual?
A falta de um diálogo racional na nossa sociedade. Tudo é imposto por uma elite, uma minoria, que se justifica pela religião institucionalizada, pelo Estado e pelo dinheiro. As questões não são discutidas, não há um diálogo com a população, pelo contrário, há uma tentativa de manipular a população. Isso vai desde a questão da legalização da maconha, até o direito ao aborto e a nossa falsa democracia.
Quem escreve as letras das músicas e quais os principais temas abordados?
Claudião e Demente na maioria dos casos. Temas de crítica social e contestação, apesar de que temos abordado também as relações entre as pessoas, falsidade, ignorância, conformismo...
Pelo fato de vocês carregaram a bandeira anarquista, já tiveram muitas tretas, certo?
Algumas... com certeza tudo seria mais fácil se não colocássemos nossa opção política em papel de destaque, se fossemos um pouco mais inofensivos e comerciais, mas aí não seríamos nós mesmos.
O que não tem saído do seu radinho recentemente?
Nacionais: Restos de Nada, Cólera, Replicantes, Inocentes e Camisa de Vênus.
Internacionais: Blitz, Anti-Nowhere League, Sham 69, Cock Sparrer e the Police.

A banda Periferia S.A. acabou de lançar seu primeiro álbum, o que você achou dessa volta do Ratos de Porão? Prefere com o Gordo?
Gosto das duas formações, mas agora o RDP ta muito podrera e eu não curto tanto. Curto o RDP na fase bem crossover, que eu acho que o Jão mandou muito bem nas guitarras e os riffs eram muito legais, a banda estava bem criativa. O Periferia eu acho muito legal, já toquei com o Betinho e ele é quente na batera, a banda tem muita energia.
Bom, já estamos com muitas perguntas, deixe uma mensagem pra finalizar:
Nunca se entregue, nunca desista! É só com esforço que mudanças acontecem e isso depende de todos nós.
Se alguém quiser nos contatar: rebelmusicrecords@yahoo.com.br.




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