Movimentos: Cyberpunk

O termo cyberpunk ganhou a mídia em 1984, quando foi usado numa resenha com título de Hot New Writers para o The Washington Post, escrita pelo jornalista Gardner Dozois, editor da revista de ficção científica Isaac Asmov Magazine, para se referir a um grupo de escritores americanos – o texto citava os nomes: Bruce Sterling, Rudi Rucker, Lewis Shiner, John Shirley, Pat Cadigan e William Gibson – cuja produção literária tinha uma série de características em comum, compondo assim uma vertente a parte dentro da ficção científica. As histórias falavam de indivíduos marginalizados em ambientes culturais de alta tecnologia. Como pano de fundo, usualmente estavam "sistemas" que dominam as vidas das pessoas comuns. Este "sistema" podia ser um governo opressivo, um grupo financeiro monopolista, uma corporação paternalista, ou mesmo um conjunto de fundamentalistas religiosos. Determinadas tecnologias potencializavam estes "sistemas"; particularmente tecnologias de informação (meios de comunicação de massa, redes de computadores, ou alguma coisa intermediária entre os dois), que sustentavam a unidade do "sistema" na medida em que mantinham aqueles que as usavam ligados a ele. O texto Before the Light Come On: Observations of a Synergy, de Stephen P. Brown mostra como se deu os encontros necessários entre escritores que buscavam os mesmos objetivos. Em 1970, o próprio Stephen Brown conheceu John Shirley. Algumas histórias de Shirley foram públicadas na Amazing and Fantastic, de Ted White. Em 1974, Brown apresentou Shirley a Bruce Stearling. Nessa época, Shirley escreveu City Comie A’ Walking (1977) e Bruce Steraling Involution Ocean (1977) e The Artificial Kid (1980). Em seguida, Stearling começou a produzir o Cheap Truth, fanzine sobre ficção científica também seria um forte elemento aglutinador, por colocar em contato mais pessoas interessadas na visão de futuro proposta pelo cyberpunk. Em 1980, Joh Shirley conheceu Wilian Gibson. A primeira novela de Shiner, Frontera é de 1984. Também neste ano Gibson publicou Neuromancer e Gardner Dozois escreveu um ensaio no The Washington Post, no qual ele classificou Gibson, Shirley, Sterling, Shiner e outros com o termo ciberpunk. Em 1985, Shirley escreve o primeiro volume da série Eclipse e Stearling publicou. Brown considerou também que os autores ciberpunks não criaram nada novo, mas apanharam pedaços e partes do que já estava se tornando verdade, e retornaram isto para os leitores que já estavam vivendo no cenário imaginado por Gibson, estivessem eles sabendo ou não. Freqüentemente estes sistemas tecnológicos se estendiam até os "componentes humanos" através de implantes mentais, próteses, clonagem, ou com a criação de seres gerados a partir de engenharia genética. Ou seja, os próprios humanos faziam parte da "Maquina". Esta era a parte cyber da ficção cyberpunk. Todavia, como em qualquer cultura, havia aqueles que viviam como marginais, "on the Edge": criminosos, párias, excomungados, visionários, ou simplesmente quem queria liberdade para propósitos particulares. O foco estava nestes indivíduos e em como eles subvertiam o uso as ferramentas tecnológicas criadas pelo "sistema", para objetivos pessoais. Esta era a parte punk. Uma das primeiras narrativas a reunir algumas destas características foi o livro True Names, de Vernor Vinge, publicado em 1981. Porém, foi só em 1983 que a palavra cyberpunk apareceu pela primeira vez. Era o título de um conto de Bruce Bethke publicado na revista Amazing Science Fiction Stories. Neste mesmo ano começou a publicação, no Texas, de um fanzine chamado Cheap Truth, no qual, sob pseudônimos, eram anunciados guerrilhas de ficção científica que criticavam a ficção científica tradicional. Esta publicação ajudou a fomentar a produção abordando temas afins. O editor, o próprio Bruce Sterling, era amigo comum dos demais autores citados por Dozois, e foi nessa época que cada um deles pode entrar em contato com os outros. Do grupo, aquele que ficou mais conhecido foi William Gibson, em cuja obra Neuromancer, de 1984, aparece pela primeira vez o termo ciberespaço (cyberspace). O livro ganhou os prêmios mais importantes para a produção literária de ficção científica: o Hugo, o Nebula e o Philip K. Dick Award. O que promoveu o motor para a popularização do cyberpunk. Bruce Sterling -- para explicar porque a ficção científica dos anos 80 tinha assumido as características agrupadas sobre o rótulo de cyberpunk -- declarou que a principal diferença entre aquele tipo de ficção e aquela produzida até então era aqueles autores foram os primeiros a terem como inspiração não apenas a herança da história da literatura de ficção científica, mas o fato de terem vivido em um mundo realmente de ficção científica. Para entender melhor este fato, é importante analisar o contexto científico da época e os conseqüentes impactos culturais: a tecnologia havia saído dos cetros de pesquisas militares e de universidades para invadir a vida cotidiana na forma de forno microondas, controle remoto, sensores que abrem portas automaticamente, etc. Além disso, a ciência anunciava uma série de recentes conquistas em campos de versos. A exemplo da engenharia genética, que não mais ocupava as páginas dos periódicos científicos, mas sim dos jornais e revistas semanais. Estas revistas também traziam anúncios de uma leva dos novos objetos de desejo, ainda mais fantásticos do que os eletrodomésticos -- que já eram comuns nos lares da classe média há pelo menos algumas décadas. Walk man, video game, micro computador doméstico, televisão à cabo, vídeo cassete, etc são alguns exemplos dos muitos produtos que eram novidade na época. Pode-se dizer que esta era apenas uma repetição do fenômeno pelo qual de tempos em tempos, o mercado torna disponível para as massas uma quantidade maior do que o normal de novidades eletrônicas. Na década de 40, por exemplo, havia sido a televisão (preto e branco), a torradeira elétrica, as maquinas de lavar, secar e encerar. Os eletrônicos da década de 80, porém, eram na maioria voltados para a comunicação, simulação e entretenimento. Além disso, o barateamento de equipamentos eletrônicos profissionais inundou os meios de comunicação de massa com uma nova estética: em 1984 a maior parte da população começava a assimilar o uso de gráficos e sons computadorizados. O que imprimia à existência cotidiana, dos grandes centros pelo menos, um caráter futurista que só era conhecido da ficção científica. No início dos anos 80, portanto, havia a necessidade de se criar uma ficção científica que levasse em conta na própria concepção as recentes conquistas científicas e toda eletrônica que invadia a vida cotidiana. AS DIFERENÇAS COM A FICÇÃO CIENTÍFICA TRADICIONAL - A ficção científica ganhou o status de gênero literário no início do século XX. O termo foi usado para designar ficção que imaginasse o impacto de da ciência existente ou imaginada sobre a sociedade e sobre os indivíduos. Mas o termo passou a ser usado para designar qualquer forma literária de fantasia que incluísse um fato científico – uma máquina, ou uma descoberta, por exemplo – como componente da trama. A ficção científica deveria consistir na analise fundamentada e cuidadosa da extrapolação de fatos e princípios científicos e ou/ das conseqüências absurdas da contradição direta destes mesmos fatos e princípios. Em ambos os casos a plausibilidade baseada na ciência deveria ser um requisito. Podem ser consideradas obras precursores deste gênero: as novelas góticas de Mary Shelley, Frankenstein e Modern Prometheus, 1818; além de Strange Case of Dr. Jekyll and Mr Hyde (O Médico e o Mosnstro), 1886, de Robert Louis Steverson. Enquanto que Dracula, 1897, de Bram Stoker, baseada apenas no sobrenatural não tem nenhuma ligação com a ficção científica. A ficção cientifica em si só foi tornada possível com os avanços da ciência moderna, do final do século XIX e início do século XX, principalmente nas áreas da astronomia e da física. Existiram notáveis precursores: viagens imaginárias para a lua e para outros planetas, no século XVIII e a viagem espacial de Micromégas, 1875, de Voltaire; as culturas alienígenas que aparecem em Guliver’s Travels (As Viagens de Guliver), 1726), de Johnathan Swift; e os elementos de ficção científica das histórias de Edgar Alan Poe, Nathaniel Hawthrome e Fitz-James O’Braien. Mas a ficção científica propriamente começa apenas no final do século XIX, com os romances de Júlio Verne, bem como as novelas de "orientação científica" de crítica social de H.G. Wells. O desenvolvimento da ficção científica, como um gênero a parte dentro da literatura, data de 1926, quando Hugo Gernsback, quem cunhou o rótulo de "ficção científica", fundou a Amazing Stories Magazine, revista destinada exclusivamente para histórias de ficção científica. Publicadas nesta e em outras pulp magazines, como eram chamadas, estas histórias alcançaram grande sucesso de público. Não eram vistas como literatura séria, mas como sensacionalismo. Com o aparecimento, em 1937, de um editor exigente, John W. Campbell, da Astounding Science Fiction (fundada em 1930) e com a publicação de histórias e contos de autores como Isaac asmov, Arthur C. Clarke e Robert A. Heilen, a ficção científica mostrou seu lado de "literatura séria". Nesta época, se aventuravam no gênero inclusive autores que não eram exclusivos da ficção científica, como por exemplo Aldous Huxley (Brave New World, 1932), C.S. Lewis e Kurt Vonnegut. Uma grande explosão de popularidade aconteceu quando depois da Segunda guerra Mundial. Os resultados da bomba atômica levaram Huxley de volta ficção com o livro Ape and Essence (O Macaco e a Essência), de 1948, e no ano seguinte foi publicado 1984, de George Orwell. O crescimento da sofisticação intelectual do gênero e a ênfase cada vez maior em assuntos sociais e psicológicos, alargou de forma significativa o apelo da ficção científica no público leitor. A ficção científica se tornou internacional, alcançando as União Soviética e as nações da Europa Oriental. A crítica séria do gênero tornou-se comum, e, nos Estados Unidos particularmente, a ficção científica passou a ser estuda como literatura em universidades. Revistas especializadas eram dedicadas a informar os fãs sobre todos os aspectos do gênero. Alguns livros se tornaram best sellers. Além dos mestres conhecidos do gênero, tais como Clarke, Heinlein, e Asimov, escritores de ficção científica de meritos notáveis no periodo do pós guerra incluem A.E. Van Vogt, J.G. Ballard, Ray Bradbury, Frank Herbert, Harlan Ellison, Poul Anderson, Samuel R. Delany, Ursula K. LeGuin, Frederik Pohl, Octavia E. Butler, and Brian Aldiss. Estes escitores fizeram profecias sobre sociedades futuras sobre a Terra, analizaram as consequencias do advento das viagens inter estelares, e fizeram explorações criativas sobre formas de vidas inteligentes e suas respectivas sociedades em outros mundos. O rádio, a televisão e o cinema reforçaram a popularidade do gênero. Este gênero literário apareceu nos anos de 1920 com as primeiras revistas que publicaram histórias a cerca do futuro. A popularização do gênero veio com a revista Astonning, que trazia entre outros autores, Arthur Clark. Os anos 40 marcaram a idade de ouro do gênero com Isaac Asimov e o tema dos robôs. Nos anos 50 apareceram os andróides e cyborgs com Philip K. Dick.

Assim, podemos traçar algumas diferenças entre a literatura cyberpunk e as outras formas de ficção científica realizadas até então: a tecnologia aparecia não como uma projeção de como vai ser o futuro – como no caso de The Shape of Things to Come (Os ventos da Mudança), de H. G. Wells, mas para criar um cenário capaz de gerar uma alegoria crítica da sociedade atual. O próprio futuro não é mais o longínquo – como em A Fundação, de Isaac Asmov, que fala sobre um império do ano 5000 -- ; mas as década de 2010 e 2020, do ponto de vista da década de 1980. Os protagonistas não são heróis virtuosos escolhidos para uma missão à Júpiter -- como 2001, de Arthur Clarck. São pessoas comuns, integrantes do povo, com os vícios e defeitos humanos. O movimento literário chamado de cyberpunk foi saudado por fazer a ponte entre dois outros gêneros de ficção: o hard science e o new wave. O hard sceince fez muito sucesso no início nas décadas de 40 e 50, estava centrado nas especulações sobre as possibilidades e via estas mudanças com otimismo. Entre os nomes mais representativos desta época, estão: Heinlein, Poul Anderson, Hal Clement e Gregory Benford. (pesquisar mais sobre o hard science) Já o new wave foi filho do ativismo político dos anos 60 e 70. Alguns dos autores mais conhecidos são Norman Spinrad, Harlan Ellison, Michael Moorcocke e Samuel R. Delany, que abordava a questão da alienação em um futuro high tech.Os temas caros aos autores cyberpunks mostram bem essa mistura dos dois gêneros de ficção científica dos anos 60 atualizados com as conquistas tecnológicas dos anos 80. Do hard science, a tecnologia de ponta: implantes corporais (circuitos, órgãos artificiais, drogas, cirurgia plástica, mudança genética, interface cerebral), inteligência artificial, neuroquímica, mundos virtuais e ciberespaço, hacking, vírus, nanotecnologia. Do new wave, a atitude da contra cultura: através da tecnologia, encarnam o mito do aventureiro que parte para conquistar outros mundos, no caso a exploração dos territórios dos bancos de dados.INFLUÊNCIAS LITERÁRIAS FORA DA FICÇÃO CIENTÍFICA - Outros autores que influenciaram o movimento cyberpunk foram William Burroughs e Thomas Pynchon. Apesar de não escreverem fição científica, eles capturaram o espírito da época marcada pela trilogia sexo, drogas e rock 'n' roll. Através da sátira, do humor negro, e do que americanos chamam de streetwise -- uma inteligência que se aprende na rua e não na escola -- expressavam com insolência discórdia do pensamento vigente, criticavam o american way of live, e inflluenciaram o nascimento da contra cultura dos anos 60.Os personagens cyberpunks são anti-heróis drogados, outsiders, que buscam, no dia a dia de um mundo inóspito, encontrar soluções para seus próprios problemas. O cenário era urbano, o humor era sombrio e pessimista, os conceitos eram apresentados ao leitor sem explanações dos significados, da mesma maneira que as novidades tecnológicas já atingiam a população na década de 80. Os personagens frquentemente mostravam ambigüidades morais: simplesmente lutar contra o sistema, seja para fazê-lo ruir, ou simplesmte para manterem-se vivos, não costuma criar "heróis" no senso tradicional.O estilo de Willian Gibson foi influenciado também pela romance policial noir de Raymond Chandler e Dashiell Hammett. Estes dois autores deram um choque de realidade no romance policial (que era aristocrático e cerebral). Introduziram na literatura a violência das ruas, gerada pela recessão econômica dos anos 30, filha do Crash de 29. Já o cyberpunk transformou o mundo asséptico e sob controle da science fiction convencional num cenário de caos urbano, onde circulam os personagens da (contra) cultura pop que manejam as mais sofisticadas engenhocas produzidas pela alta tecnologia. Em Neromancer, Case, o protagonista, é alguém marginalizado pelo sistema de mega corporações que, ao lado de Molly, é contratado por um misterioso patrão que oferece em troca do serviço concertar os nervos danificados de Case para que ele possa de novo entrar no ciberespaço. Case, porém, descobre que ele trabalha na verdade para uma inteligência artificial chamada Wintermute, que está tentando subverter as restrições impostas às inteligências artificiais pela polícia para manter os computadores sob controle.O TERMO CYBERPUNK - O universo da ficção-científica cyberpunk põe em conjunção o reino da tecnologia de ponta, da racionalidade da hard science, que convive e alimenta o lado subterrâneo, hedonista, rebelde dos textos de Burroughs e Pynchon.A parte cyber aqui fica por conta da presença de um ambiente controlado por por um sistema: governos represares, um grupo de fundamentalistas. Esse sistema é formado por tecnologia de computadores e meios de comunicação de massa. Freqüentemente estende-se com impalntes neurais e outras próteses, tornando os humanos parte da maquina. Os personagens vivem na periferia dessa matriz, cruzam as fronteiras; são criminosos, excluídos ou visionários com o único objetivo de viver em paz em um modo próprio. O foco é como estes indivíduos se utilizam da tecnologia para alcançar objetivos. Está e a parte punk do termo cyberpunk.Os protagonistas cyberpunks se deparavam com situações ligadas ao cotidiano das grandes metrópoles atuais, além de possíveis, muito prováveis num mundo altamente influenciado pela tecnologia: na maioria das vezes relativos ao controle da informação por pequenos grupos -- a tecnocracia -- o uso da tecnologia por parte do estado ou das mega corporações para controlar a vida do cidadão. E como pano de fundo, o cenários das megalópoles assoladas pelo caos urbano, o crime, a poluição, a chuva ácida.Estas histórias vão além da relação de dualidade entre a tecnofilia e tecnofobia que marcou a ficção científica até então. A tecnologia não é mais vista como inimiga ou aliada do ser humano, mas como um elemento presente no mundo que é usado pelos seres humanos para alcançar seus objetivos. Não que os problemas causados pela tecnologia não existam. Eles fazem parte da vida cotidiana dos personagens, mas ao mesmo tempo estes personagens precisam da tecnologia para desenvolver atividades básicas e continuar sobrevivendo.




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