Movimentos: Anaquismo

Possivelmente, você já ouviu a expressão “anarquia”. Esta expressão geralmente é usada para designar tudo o que signifique bagunça, desordem, descontrole. Isto acontece sim, mas por quê? Para responder esta pergunta é preciso primeiramente explicar o que significa a expressão ANARQUIA. Do grego, “archia” significa “poder”, e “na” é sufixo de negativa. Logo, “anarchia” (Anarquia) significa “ausência de poder”. Ausência de poder significa que não há governo, nem autoridade, nem leis que regem o indivíduo, a comunidade e a sociedade. A falta de governo, muitas vezes, nos traz a idéia de bagunça, pois governo significa (ria) controle, ordem. Porém o que vimos em toda a história do Estado é exatamente a ausência de ordem, de organização. O que nos mostra que o poder centralizado (Estado) não é capaz de prover as necessidades básicas de toda uma sociedade (leia-se saúde, educação, etc). O pensamento anarquista (da anarquia) vê que não é um poder centralizado - seja na mão de um (monarquia), de poucos (aristocracia), ou, mesmo, na mão de muitos (democracia) - que organiza uma sociedade, e este poder não deve existir, pois a sociedade mesma é quem deve se “auto-organizar”, se “auto-gestionar”. Poder centralizado significa concentração de decisões e de força para alguns, não para todos, o que significa que o Estado detém o monopólio da violência, o que, geralmente, leva à repressão, inibição e co-ação da sociedade. Isto é o controle. Controle é a inibição e repressão de todo aquele que agir de forma contrária às leis do Estado, que por conseqüência se referem à sociedade. Porém não quer dizer que estas leis realmente representem a sociedade, pois estas não foram feitas pela sociedade, mas sim, feitas por alguns homens selecionados arbitrariamente pelo próprio governo, ou seja, sem a consulta do povo. O povo é forçado a obedecer a leis que, na realidade, não sabe para que servem, ou para quem foram feitas. O povo é forçado a obedecê-las por mecanismos que o Estado cria com a desculpa de garantir a segurança da sociedade. Estes mecanismos são nos conhecidos como Polícia, Exército, entre outros. Outros mecanismos são criados para o controle e manutenção do Estado e do Governo. Dentre estes, ilusões chamadas “hierarquia” e até mesmo, “liberdade”. Quando dizemos ilusões, queremos dizer que na realidade estas não existem, porém nós as aceitamos como fatos, como verdades. É nos introjetada a idéia que a organização hierárquica é necessária, ou seja, que para nos organizarmos precisamos colocar valores uns aos outros, ou valores às coisas em diferentes proporções. Isto quer dizer que nós valorizamos, damos mais importância a algumas coisas que damos a outras, ou mais importância a alguns do que damos a outros. Como se o trabalho de uns fosse mais necessário que o de outros. Para exemplificar isto, podemos usar um médico e um coletor de lixos. De forma simples vemos que ambos têm a mesma importância e que o trabalho de ambos é necessário. Vejamos: se em uma sociedade não houvesse trabalho de coleta de lixo, de higiene... a probabilidade de surgimento de diversas doenças seria enorme, pois higiene é condição necessária para a vida humana e animal, assim como alimentação. E não seria suficiente, por maior que fosse o número, médicos para cuidar das tais doenças que surgissem nesta sociedade, pois, necessariamente, o número de médicos seria inferior ao número de habitantes, e além disto, as doenças, nem sempre, são conhecidas pelos médicos, logo precisaríamos de tempo e médicos para a pesquisa de tais, enquanto muitos estariam no trabalho de combate a doenças da população. E isto tudo, sem dizer que o caos que um lugar ficaria sem o lixo recolhido seria enorme, causando, além de problemas de saúde, a poluição, até, visual. Por outro lado, se tal sociedade não tivesse o trabalho médico e tivesse o de coleta de lixos, este segundo não seria suficiente para garantir a saúde de uma sociedade, pois nem todas as doenças são provenientes de poluição causada pelo lixo. E assim vai toda a problemática. A partir disto, conclui-se que tanto o trabalho de coleta de lixo, quanto o trabalho médico têm a mesma importância, pois um não supre a falta do outro em ocasião alguma. Portanto, a hierarquia de valoração é apenas uma ilusão criada para fazer-nos acreditar que sempre foi assim e assim será, porque uma atividade é mais importante que outra. Ao dizer que a Liberdade é uma ilusão, nós queremos dizer que, nesta sociedade ela não existe, assim como a hierarquia foi dita como verdade, a nossa liberdade é vista como liberdade de consumo, de mercado, de voto, de expressão. Porém, para consumir e para participar do mercado de forma livre e igual é preciso das mesmas condições econômicas, e isto não acontece devido ao problema explicitado nos parágrafos anteriores, a hierarquia. A valoração diferenciada dos trabalhos implica em salário, posses e tudo o mais de um membro de uma sociedade. Porém, deixamos claro que não é esta a liberdade que o Anarquismo defende. Esta liberdade é falsa. A liberdade que defendemos vai muito além, aliás, nem passa por isso. A verdadeira liberdade é referente à escolha do indivíduo de fazer e ser o que quiser, contanto que suas atitudes e escolhas não interfiram com a liberdade alheia (atitudes “fascistas” não serão livres nesta sociedade, pois estas interferem com a liberdade de ir e vir de outrem). A liberdade que defendemos é a liberdade em todos os sentidos possíveis. Seja ela sexual, seja de crédulo, moral... Esta liberdade que defendemos não é a ilusão de liberdade da nossa sociedade atual, a “sociedade burguesa”. Numa sociedade anarquista não há o “capital” (dinheiro). A organização econômica no anarquismo é baseada nos princípios de solidariedade e complementação de trabalho. Assim sendo, todas as atividades trabalhistas desta sociedade são e têm o mesmo peso, logo, todos têm os mesmos direitos e deveres. Aí, encaixa-se o princípio de Auto-Gestão, onde os trabalhadores se organizam sem patronato, logo, de forma horizontal, ou seja, sem hierarquias. Está prevista, também, para esta sociedade, a abolição, assim como do Estado, da “Propriedade Privada”. Propriedade privada é demarcação de espaço, é posse de “bens”, o que limita o espaço e liberdade alheia, pois apenas alguns vão deter tais bens e propriedades. Sendo assim, haveria uma diferença e conseqüentemente, alguns acabariam por adquirir mais poder que outros. Assim, alguns seriam submetidos à ordem e leis de outros. Por isso, a propriedade é algo condenado pela luta anarquista. Também, não haveria um outro poder, que é o Poder Religioso. Concepções religiosas existiriam, porém, nenhuma instituição religiosa. Toda instituição religiosa, ou não, exerce poder sobre o indivíduo, cada qual de sua maneira. No caso da Igreja - católica, protestante, ou qualquer outra - é principalmente através da moral estabelecida que ela controla as pessoas. E também, através desta moral, que ela mesma cria, ela cria, também, necessidades e obrigações aos seus seguidores. Obrigações e necessidades significam constrangimento, logo, constrangimento significa a retirada da liberdade. Estes parágrafos anteriores explicitam, de maneira resumida, o que é o Anarquismo. Claro que não é apenas este texto que nos faz entender o pensamento anarquista por completo, mas por isto, indicamos alguns livros que merecem a atenção de quem busca entender, mesmo que não concordando, o que é a Anarquia.


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