Movimentos: Rockabilly

É mais do que pretensão tentar apontar o início de um movimento artístico-social. Beira a ignorância. Por mais que se eleja um marco histórico como referência, peca-se na privação de uma análise anterior que pode revelar-se, por vezes, bem mais interessante. Uso esta ladainha comunicóloga para justificar a minha escolha por uma retrospectiva tentando não cair na chatice dos historiadores, os quais analisam o a beirada mas se esquecem do recheio. Sim, o tema é rockabilly, e é disso que vamos falar. Bom, uma solução bacana pode ser a análise etimológica do termo. Rockabilly pode ser interpretado como a combinação do rock com o hillbilly. Alguém se levantará do túmulo bradando - "Então o rock veio antes do rockabilly?". Não, a verdade é que o termo 'rock', antes de denominar o estilo de música popular norte-americana, servia para dar uma idéia de agitação, nervosismo, aceleração. Desde isso até o ato de quebrar tudo podia se chamar de 'rock' na língua anglo-saxã. O hillbilly é um termo usado para denotar os caipiras (necessariamente brancos) habitantes de alguns estados meridionais dos EUA como Tennessee, Kentucky e Carolina do Norte. Basicamente podemos nos arriscar dizendo que dois ingredientes decisivos para a formação do rockabilly são o bluegrass e a country music levada com guitarra elétrica, mais acelerada. Por isso, essa veia caipira do rockabilly. O rockabilly veio de artistas como Bill Monroe, Hank Williams, Merle Travis, Chet Atkins e Bob Wills & The Texas Playboys. Esses eram os artistas mais bacanas da época e todos eles se apresentavam no Grand Ole Opry, show semanal realizado em Nashville e transmitido pelas rádios para muitos estado dos EUA. País com profunda segregação racial (principalmente no Sul), os Estados Unidos apresentaram, desde sua fundação, pelo menos duas raízes musicais distintas: a dos negros e a dos brancos. Os negros criaram o blues, o gospel e as primeiras formas de jazz. Os brancos, por sua vez, entraram com a influência européia e criaram a country music a partir da música celta, além de avançarem pela música popular para musicais, entre outros. Nos anos 40, o swing, ritmo mais acelerado de jazz, acusou as primeiras formas de misturas raciais, com algumas orquestras sendo compostas por representantes das duas etnias e tendo um público pluriracial. Estas características deveram-se, também, ao período entre-guerras, que, através da composição de contingentes militares, proporcionou uma coexistência de diferentes comunidades no EUA, principalmente no Norte. Ainda assim, temos uma grande diferença que faria com que não estivéssemos tão perto do surgimento do rockabilly: o swing não era uma música de jovens feita por jovens e para jovens. Talvez o primeiro músico a realmente dialogar nesse sentido apresentando um formato menor e mais simplificado de swing (o jump blues) tenha sido mesmo Bill Halley, em 1953 com 'Rock the joint'. Embora Bill Haley possa ser apontado como um precursor do rock, ele não continha tanta influência country e nem tampouco a segunda metade do rockabilly – a música negra americana, principalmente o gospel e o blues – como célula sonora. Por outro lado, o 'Chicago Blues' e o 'rhythm’n’blues' começaram a se fundir através de artistas como Fats Domino, Little Richards, Bo Diddley e Chuck Berry. Este último também pode ser considerado um artista próximo do rockabilly, mas me arrisco a dizer que Chuck Berry encontrou um atalho de alguns anos, fazendo em 1955, em Chicago, o que outros só iriam começar a fazer na década seguinte. Mais ainda, Chuck Berry era um artista negro e, portanto, não poderia ser considerado um hillbilly. Assim, o rockabilly teria que nascer, de fato, em 1954, com brancos pobres e caipiras tocando country acelerado com um tempero negro, num misto de instrumentos acústicos (baixo, bateria, violão) e elétricos (guitarras). Foi em Memphis (TN), que o caminhoneiro Elvis Presley resolveu gravar um compacto para sua mãe, uma balada country 'My happiness' de Ink Spots por US$ 3.98 mais taxa. Tendo sido notado pelo dono do estúdio, um tal Sam Phillips, Elvis voltaria para gravar mais duas baladas no dia 4 de janeiro de 1954. Abreviando as idas e vindas, Elvis gravaria seu primeiro single para o Sun Records em 5 de julho de 1954. Ao seu lado, naquelas que seriam conhecidas com 'Elvis’ Sun Sessions', estavam o contra-baixista Bill Black e o guitarrista Scotty Moore, ambos músicos conhecidos na cidade e integrantes do grupo Honky Tonk’ Starlite Wranglers. Sem um baterista na sessão, tanto Scotty como Bill trataram de preencher espaços, desenvolvendo um estilo que, somado com a frenética base rítmica e o vocal fora dos padrões de Elvis revolucionariam a música mundial com a gravação de 'That's allright' e 'Blue moon of Kentucky' – curiosamente um clássico gospel e uma valsa country. Sam Phillips já dizia: "Se eu conseguisse achar um homem branco com um som e feeling negro, eu faria bilhões de dólares". Elvis seria o primeiro jovem de costeletas, topetes e terno rosa a tocar em rádios negras em Memphis, fato que resume o início do terremoto. Canções como 'Good rockin’ tonight', 'Heartbreak hotel', 'Mistery train’, 'Trying to get to you', 'Hound dog', 'Jailhouse rock' e tantas outras não deixam dúvidas sobre a influência de Elvis em todos os que se aventuram a se apresentar em palcos com instrumentos eletrificados. É necessário deixar claro que, o restante da carreira de Elvis, não pode ser vinculado ao rockabilly, uma vez que o Rei explorou outros formatos e recursos, alguns de eficácia duvidosa, outros de valor inquestionável. Pouco mais de seis meses após o início das primeiras sessões de Elvis, em 1954, um outro músico fabuloso, vindo diretamente de Nashville, pisaria no mesmo Sun Studio para começar a gravar as primeiras faixas de um repertório que se tornaria o preferido de gente como George Harrison e Eric Clapton. Tendo gravado 'Movie Magg' em janeiro de 55, Carl Perkins seria o primeiro artista de rockabilly a gravar clássicos de autoria própria. Mais ainda, Carl Perkins seria reconhecido como o primeiro vocalista que acumulava a função de guitarrista solo em sua banda. Com músicas como 'Blue suede shoes', 'Honey don't', 'Matchbox' e 'Everybody's trying to be my baby', Carl Perkins tornaria-se o artista mais representativo e duradouro do movimento nas décadas seguintes, além de o mais gravado pelo Beatles em discos oficiais. Ainda em Memphis, outro grupo comporia músicas de altíssima importância para o surgimento do rockabilly. O Johnny Burnette Trio, composto pelos irmãos Burnette e pelo sensacional guitarrista Paul Burlison abandonariam um pouco o country emprestando um pouco mais de agressividade em suas interpretações de música como 'Honey hush', 'Tear it up' e 'Train kept a rolling' – essa última regravada por uma série de artistas do final do século, entre eles, Yardbirds e Aerosmith. O que dizer do camarada Burlison que inventou a 'fuzz guitar' quando uma das válvulas de seu amplificador se soltou antes de uma show em meados de 1956? Genial. Ouvir o disco 'Rockabilly boogie' pode ser uma experiência reveladora e destruidora de ídolos. Saindo um pouco do Tennessee, ainda em junho de 1956, pela gravadora Capitol, Gene Vincent & The Blue Caps, com o sensacional guitarrista Cliff Gallup, lançaria um dos álbuns mais incendiários de todos os tempos: 'Blue Jean Bop'! Estabeleceria, junto com a Sun Sessions de Elvis, a clássica sonoridade rockabilly de estúdio, com muito 'slap echo' e ambiência. Suas gravações seguintes rivalizariam com Elvis em 56 e 57, principalmente seu maior hit, 'Be-bop-a-lula'. Gene seria um personagem ativo na América durante o restante da década de 50 e na Europa, na década de 60, quando fez uma turnê com os Beatles pelo Velho Continente. Apesar de ser muitas vezes comparado com Elvis, Gene Vincent nunca se aproximou tanto da Country Music, desenvolvendo um estilo bem mais direto, sem tantos backing vocal e com a formação baixo acústico-violão-guitarra-bateria sendo mantida por muitos anos. Na Califórnia, naquele mesmo ano, um jovem de 17 anos experimentava novas técnicas de estúdio e propunha novas sonoridades para o rockabilly tanto pela timbragem (regulagem) de instrumentos como pela temática. Com clássicos como 'Summertime blues', 'C'mon everybody', 'Something else' e '20 flight rock' – a música que Paul McCartney usou para pleitar uma vaga nos Quarrymen - Eddie Cochran eletrificou ainda mais o rockabilly, tocando com baixo elétrico e fazendo 'overdubbs' (sobrepondo o mesmo instrumento na mesma música) numa época em que a técnica era muito pouco utilizada em estúdios de rock. Junto com Gene Vincent, Eddie ajudou a disseminar o rock na Europa fazendo excursões em 1959 e em 1960, quando faleceu vítima de um acidente de carro ocorrido minutos após uma apresentação em Londres. O legado musical e visual de Eddie Cochran, apesar de sua morte prematura, é inquestionável. Gravado por nomes como The Who, Ramones, Sex Pistols, Beatles e, claro, Stray Cats, Eddie Cochran é um ícone da mais primitiva forma de 'guitar hero'. É só olhar para uma foto do Eddie Cochran que você entenderá o porquê! Fazendo a ponte mais perfeita entre o rockabilly e o rock n´roll, um artista estabeleceu padrões que seriam levados adiante pela próxima geração de músicos representativos. Buddy Holly foi talvez o mais pop dos rockabillies. Primeiro roqueiro a botar uma Fender Stratocaster na roda, inventor da formação clássica de banda (duas guitarras, baixo e bateria) e, junto com Eddie Cochran, o primeiro roqueiro a adicionar cordas em baladas ('True love ways'), Buddy Holly foi um compositor e 'performer' duro de ser igualado. Não fosse sua morte prematura (aos 22 anos) em acidente aéreo no dia 3 de fevereiro de 1959 (que matou também Big Bopper e o fantástico Ritchie Valens, de apenas 17 anos), a história da música como conhecemos teria sido fatalmente mudada. Não por acaso a data é lembrada nos Estados Unidos como o "Dia que a música morreu". Fica como consolo o fato de Buddy Holly ter sido um dos mais produtivos artistas de sua época, o que lhe valeu um grande e rico repertório gravado e lançado em vida. Pérolas como 'That´ll be the day', 'Peggy sue', 'Not fade away' e tantas outras gravadas entre 57 e 59, fazem a conexão perfeita entre o country e o rhythm'n'blues, além de apresentar células percussivas extremamente originais. Marcado por tragédias individuais, o rockabilly ainda teve representantes importantes e ativos. Dentre eles, podemos citar Jerry Lee Lewis – que incendiou literalmente palcos com seu piano ensandecido (uma quebra no formato do estilo); Roy Orbison, com seus vocais inconfundíveis; Link Wray, com sua guitarra precursora da surf music instrumental; e até mesmo Bill Halley que, mesmo não se enquadrando na caipiragem proposta pelo estilo, teve papel decisivo na incursão do rockabilly pelas telas de cinemas. 'Rock Around the Clock', filme que encorajou a RCA a contratar Elvis Presley, abrindo vaga para Carl Perkins, Johnny Cash (outro representante autêntico) e tantos outros no Sun Studio, foi um dos veículos mais poderosos de propagação da música jovem pelo Mundo Inteiro. Além de marco na história da música ocidental, o rockabilly representa um movimento de transgressão social tanto no âmbito racial – onde rompeu barreiras culturais de produção, execução e de audiência – quanto no cultural. A partir do rockabilly e de outros tantos movimentos de contraculturas, os jovens começaram a ter outro papel na sociedade americana e mundial, adquirindo voz própria. Tanto nos Estados Unidos como na Europa, jovens começaram a reivindicar mais independência quanto ao ingresso no mercado de trabalho, acesso a bens de consumo e manifestação artística. Não por outro motivo, foi nos anos 50 que a indústria de vestuário, fonográfico e cinematográfica voltou-se ao público de menos idade. E se a boa música foi quase esquecida nos primeiros anos da década de 60, os ingleses se encarregariam de levar adiante o projeto de uma nova linguagem musical com o rock'n'roll.

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