Movimentos: Beatnik

Generation foi o primeiro movimento - organizado é querer muito - de contra-cultura com forte importância histórica e cultural a acontecer nos EUA. Seus integrantes eram conhecidos como Beatniks (um desses rótulos que a imprensa inventa de vez em quando, tipo grunge, mas que Jack Kerouac reivindica autoria) uma corruptela do nome do satélite russo Sputnik com o termo inglês beat, de vários significados, entre eles o ritmo (tanto musical quanto de escrita) e o aspecto depressivo, como em beat(en), que torna essa uma geração maldita. Outra maneira de se referir aos Beatniks era como Hipsters, cuja corruptela deu o conhecido hippies. Os mais espertos já notaram que isso aí se deu pela segunda metade da década de 50. Pra que se entenda a relevância dos beatniks, é necessário ter uma panorâmica do que eram os EUA naquela época: a nação mais próspera do mundo, um mar de prosperidade pós-guerra, espalhando seu way of life pelos quatro cantos da Terra em musicais, geladeiras e carrões rabo de peixe. Claro que ninguém agüenta viver com tanta vida boa assim, por isso trataram logo de arranjar uma guerra fria com a URSS, pra ter em quem colocar a culpa dos males do mundo. Dentro de casa, o que pegava era a histeria macartista da caça às bruxas, procurando uma debaixo de cada cama. Foi esse cenário que Henry Miller chamou de "pesadelo com ar condicionado". Os beats eram oriundos de famílias que passaram pela depressão nos anos 30 viajando de trem à procura de emprego. O gene do não conformismo impedia que eles se estabelecessem, a despeito das vacas gordas, e foi cruzando o país de costa a costa, recitando poemas em galerias e procurando uma consonância maior entre vida e obra artística que eles fizeram história. Eram jovens que se conheceram dentro e fora da universidade, interessados em escritos não ortodoxos como Rimbaud, Blake, Melville, Withman, Kafka, Nietzsche - alguns dos quais vieram depois a ser adotados nas universidades, sendo inclusive os professores acusados de transmitirem valores subversivos aos estudantes --, dadaístas e surrealistas, que simplesmente pareciam não se ajustar nas engrenagens assépticas e apertadas dos Eua daqueles idos. Inquietos, marginais (quando não minorias), pretendiam mostrar seu desgosto com o status, do consumismo e da tecnocracia, contrapondo propostas alternativas de vida. Não queriam mudar o mundo, nem fazer a revolução, mas lutar pelo direito de ser um indivíduo; não tinham soluções para os males do mundo. Nem para os próprios. Apesar das principais contribuições desta geração terem se dado na literatura, não é difícil identificar traços seus em outras páginas. A criação espontânea, seguindo um ritmo mental, fluente, cheio de frases em movimento e a liberdade de uma poesia plena de imagens oníricas, surreais, liberta de quaisquer padrões, com versos de 5 linhas, sempre acrescentando ao que já se fez ao invés de rever encontra paralelos no jazz bop de Charlie Parker, ato de criação contínuo em improvisos no palco, e na pintura de Jackson Pollock, o expressionismo abstrato, aqueles quadros que mais parecem borrões sobre borrões sobre borrões. O principal nome da geração é Jack Kerouac. Sua auto descrição é uma das melhores coisas que ele escreveu: estranho e solitário católico, místico e louco. Acreditava que sua missão na Terra era escrever livros e pregar a bondade universal. Dizia que sua maior luta era fazer com que o homem tivesse o direito de ser o que quisesse, ensaiando aqui a sociedade alternativa pregada pelos hippies. Ainda em fins da década de 40, partiu nas férias para o que seria a aventura de sua vida: viajar de uma costa à outra da América do Norte apenas utilizando meios de transporte baratos: trens de carga, caminhões e carona. Neste último item muito contribuiu a agitada presença do amigo Neal Cassady, figura das mais importantes, ainda que sua maior obra literária sejam suas cartas. Basta dizer que Jack termina o seu livro pensando nele, ou melhor, em Dean Moriarty, seu pseudônimo, que era como apareciam todos os amigos. On The Road, como o livro ficou conhecido, narra aquela e mais outras 3 viagens que Moriarty e Sal Paradise (Kerouac) fizeram. Uma das lendas a respeito diz que ele utilizava bobinas de papel na máquina de escrever ao invés de folhas soltas, para não interromper o fluxo de pensamento. Parece fofoca, mas é verdade: Cassady fez questão que uma namorada desse pra Kerouac, e chegou a dividir outra com ele, tão amigos que eram. Houve inclusive um caso entre eles, que aparece como amizade platônica no livro. Literariamente, On the Road é mais um fruto que se insere na linhagem norte-americana de escritores viajantes, como Mark Twain, Jack London e Hemingway, e que apresenta laços de parentesco com uma série de menestréis que vai de Woodie Guthrie a Bob Dylan. O estilo de Jack, a prosa espontânea, é uma das coisas mais gostosas de se ler: escorrega com leveza, páginas como parágrafos. Escreveu outros livros, nenhum de qualidade comparável: The Town and the City, The Subterrans, The Dharma Bums, este último da fase budista. É interessante observar o conflito entre a elétrica vida deles e as tentativas de absorver as influências orientais, como o isolamento mongil, o ascetismo e a meditação. Kerouac morreu isolado, em 1969, na sua cidade natal. O outro leão sagrado da prosa beatnik é William Borroughs. Herdeiro rico, formado em medicina, mais velho e mais culto que os outros, influenciou-s a todos. Foi viciado em heroína por 10 anos, e o relato desse tempo está em Junky, seu primeiro livro, um arraso em termos de crueza de imagens e sensações, um bestiário dos demônios íntimos que assolam a vida de um dependente. Kerouac tanto insistiu que ele acabou escrevendo um livro com o título sugerido: The Naked Lunch. Perto de Lunch, Junky é fácil de ler. Naked Lunch é a compilação mais ou menos seqüencial de viagens, horrores e paranóias que permeavam o imaginário sombrio, habitado por traficantes, lagartos, sodomitas e monstros de Borroughs nos anos do vício, em Tanger. Sobre esse livro Anthony Burguess, autor de A Laranja Mecânica, disse: "poucos homens tem a capacidade de olhar o inferno e contar o que viram; Borroughs é um deles". Borroughs escreveu depois livros como "O tíquete que explodiu" e continuou em ação ao longo do tempo, em parcerias com David Bowie ou pontas em filmes (Drugstore Cowboy). Ainda está vivo. Allen Ginsberg é o principal poeta dessa turma. Judeu, comunista e bicha, dedicava seus poemas aos amigos. Aglutina dois traços marcantes: o orientalismo, que aparece também entre os outros, em geral em formas mal resolvidas, e o ativismo político, só dele. No final dos anos 60 Ginsberg fez uma viagem ao Oriente, quando trocou definitivamente as drogas que já tinha utilizado antes (maconha, morfina, anfetamina, LSD, mescalina, cogumelos) por ioga e meditação. Tinha uma relação mística com os alucinógenos; achava que eles lhe permitiriam descobrir como era o além. Mais do que conseguir verter seus sentimentos em poesias marcadamente declamatórias (próprias para se ler em público), Ginsberg emprestava conotações políticas às sua idéias, chegando a propor (e realizar) besteiras como a distribuição livre de LSD para as pessoas. Mas foi essa consciência que fez com que ele otimizasse a transição para os anos 60 e os movimentos que viriam em seguida, sendo figura ativa em marchas hippies ou no maio de 68, na França. Allen Ginsberg continuou ativo nos anos seguintes até morrer, no começo de 97. Esses 3 são os intocáveis, mas a geração não fica completa sem a presença de Lawrence Ferlinghetti, uma das pontes mais importantes na costa oeste, São Francisco. Dono da livraria City Lights, além de escrever, editou parte dos títulos da turma, alguns ainda no catálogo. Dizem que uma das atrações turísticas dos brasileiros que foram a San Jose na Copa de 94 era visitar o velhinho in loco. Ou de Gregory Corso, tão revoltado e insubmisso que chegou a ser internado em hospício como louco mais de uma vez. Ou de Ken Kesey, escritor de Um Estranho no Ninho, que nos anos 60 fez uma viagem de ônibus pelo país junto com bandas como Jefferson Airplane e Gratefull Dead, narrada no livro O Teste do Acido do Refresco Elétrico, de Tom Wolfe. Ou de Bukowski, que merece parágrafo novo. Charles Bukowski, beberrão, perdedor nato, ex-carteiro, apostador em cavalos, é a encarnação viva do outro lado da moeda do sonho americano. Capítulo à parte da literatura norte-americana pelo seu conteúdo iconoclasta, pelo método de criação incomum - nas coxas, pelo universo fictício mais denso e (grotesco, até) que qualquer outro escritor metido a marginal jamais conseguiria criar. Bukowski é injustamente (mesmo que a seu pedido) colocado à parte dos beatniks, (a maioria dos quais conhecia, quando não admirava) porque morava em outra cidade, Los Angeles. Claro, havia outros motivos: ele começou a escrever mais velho, não tinha curso superior nem era do circuito acadêmico, era completamente apolítico e detestava criar em grupo. Dizia que um escritor não tinha razão de falar com outro, e mostrou isso num conto em que narra seu encontro com Borroughs. Nada como um Bukowski pra encerrar um texto.


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